Onde, quando, o quê, como e porquê?


Um autor, que no início deste século líamos sofregamente, de seu nome José Flórido, que pouco tem que ver com “movimentos tradicionais”, dizia numa das suas obras (ou terá sido oralmente?) que o Homem procura juntar-se a um grupo para preencher uma necessidade intrínseca a todo o ser humano, e que é a de se colectivizar.

Para isso, associa-se à colectividade do bairro, faz-se sócio do ACP ou do clube de futebol do coração, paga as quotas na Associação dos Bombeiros Voluntários de Queluz ou junta-se à Maçonaria.

Será esta, em grande percentagem, a razão pela qual muitos se juntam a esta provecta organização, aliciados também pelo amigo (maçom) que lhes garante: «vais ver que vais gostar; há por lá muita malta porreira, passas um bom bocado (não confundir com o bolo) e ainda fazes uns contactos».

Assim, respondendo a um anseio íntimo que o impele à colectivização, e com a garantia de que vai ser “porreiro”, como lhe disse o amigo, lá vai o indivíduo juntar-se a uma organização de que nada sabe (nem procura saber), para além, claro está, dos fait divers do costume.

Houve ainda algo que lhe ficou a retinir no ouvido, de que já muito ouviu falar: os famigerados “contactos” que por lá se fazem. Isto interessa-lhe, interessa-lhe bastante. Assim como interessa a uma grande (íamos escrever “esmagadora”, mas talvez fosse um exagero) maioria daqueles que por lá adentram.

Há dias líamos um texto de um Amigo, pelo qual temos a melhor das considerações, que dizia que a «Maçonaria não é uma extensão mais bem apetrechada do Centro de Emprego» e que «as raras pessoas que conseguem entrar na Maçonaria com este tipo de pensamentos, ou com o intuito de obter vantagens conexas, são rapidamente detectadas e postas no seu devido lugar (leia-se, convidadas a sair)». Tenho muita pena de ter de discordar deste Amigo, mas parece-me que acontece exactamente o contrário.

É certo que por estes dias o cenário é muito diferente, pois a Maçonaria não ficou imune à tão falada crise que estamos a atravessar, e hoje pulula nos seus corredores um grande número de desempregados, sem vislumbre de encontrar, dentro ou fora [da Maçonaria], solução para o seu problema.

No entanto, é ainda esta ideia (a dos “contactos”) que move muitos dos que por lá andam e muitos dos que para lá querem entrar.

Seria de esperar que, com a crise, a Maçonaria fosse alvo de um saneamento deste tipo de pessoas (e acontecerá, sem dúvida), mas por vezes são aqueles que são vítimas do infortúnio e que lhe pertencem somente por razões ligadas à própria prática maçónica (sem mais “apêndices”), que se vêem arredados dos trabalhos, por impossibilidade de pagar as capitações.

Em todo o caso, mesmo que um indivíduo não entre para a Maçonaria, nem para preencher uma necessidade da natureza humana, nem para encontrar contactos que lhe facilitem a vida, são poucos, dando-se o caso de por lá ficarem, os que escapam a um rame-rame que se mantém anos (décadas?) a fio, sem vislumbre de mudança.

Um rame-rame que se mantém pois, para os maçons, em traços gerais, basta fazer três perguntas (e nós achamos de deviam fazer cinco): onde(?), quando(?) e o quê(?).

«Onde é que é a sessão? Quando é que é a sessão? E vamos fazer o quê?». E isto, para muitos, quase todos, é o bastante.

São poucos os que se indagam do “como”, e os que fazem a derradeira pergunta, o “porquê”, são tão raros que, provavelmente, estão mesmo em vias de extinção (ou não).

O “como” prender-se-á com o ritual praticado: estará a ser executado em condições? Apresenta falhas? E serão falhas do próprio ritual ou do executante? Servirá este ritual a todos ou será melhor encontrar outro que melhor sirva? Tantas e tantas perguntas que surgem, mas que morrem mesmo antes de nascer, pois (quase) ninguém se mostra interessado (nem em fazê-las, quanto mais dar-lhes resposta).

E, por fim, o “porquê”: qual será o objectivo derradeiro que a todos move? São lestos em responder que NÃO estão “ali” por motivos pessoais e/ou profissionais, mas emudecem quando lhes é perguntado: «então é porquê? Porque é que aqui estás? O que te move? O que te faz retirar tempo da tua presença à tua família, aos teus afazeres, para aqui estares com um avental e umas luvas, a dizer palavras que, muitas vezes, desconheces o significado?».

Em todo caso, estas perguntas têm, por vezes (pasme-se), respostas, mas estas prendem-se, também quase invariavelmente, com questões “externas” (vamos dizê-lo assim) à pessoa: «Estou aqui porque me interessa o papel que a Maçonaria desenvolveu ao longo da História», ou, o que é quase a mesma coisa, «a mim interessam-me as conquistas históricas da Maçonaria, como a implantação da República em Portugal ou a Carta dos Direitos Humanos», ou o diabo a sete, acrescentaríamos nós (pode ler-se o que pensamos disto aqui).

Quando há pouco dizíamos que, para nós, “acontece exactamente o contrário”, queríamos dizer que aquelas (raras) pessoas que se apresentam aos portais da Maçonaria com uma vontade de auto-análise e de auto-descoberta, implicitamente (ou explicitamente, se o quisermos ver) propostas por esta organização iniciática (de entre outras “propostas”, mas que não nos afastam destas), pois é para isso que verdadeiramente nos remetem os rituais e a atmosfera “criada” nos templos (onde irmãos se reúnem com irmãos, a coberto da indiscrição dos profanos), essas (raras) pessoas, essas sim são «rapidamente detectadas e postas no seu devido lugar (leia-se, convidadas a sair)».

Para terminar numa nota não tão “catastrófica” como aquela da frase imediatamente anterior, será de referir que existe um número cada vez maior de maçons disponível para dar atenção a questões que apelidaríamos de (desta feita sem receio de exagero) verdadeiramente importantes. Isto é, existe um número cada vez maior de maçons para o qual a prática correcta e rigorosa do ritual é de enorme e inquestionável importância. São adeptos da ideia de que, em Maçonaria, a forma é conteúdo e é, então, primaz dar atenção aos rituais, às frases e ideias que aí se encerram, para que se possa construir com bases sólidas.

E há também aqueles que se preocupam com o “porquê” de ali estarem, mas um “porquê pessoal”, uma indagação íntima; preocupação, essa, que irá “encontrar eco” (muito naturalmente) em outros irmãos, e juntos irão preparar projectos de Loja, ideias-mestras que os ajudem a dar um justo rumo aos seus trabalhos conjuntos.

Acrescentamos, ainda, que existe um número cada vez maior de maçons para o qual o ritual não é simplesmente algo que lhes aconteceu, quase que por acaso, naquele determinado dia. Este cada vez maior número de maçons apresenta-se em templo procurando fazer emergir o melhor que em si existe, elevando-se acima de uma existência meramente profana, e procurando fazer a ligação com algo superior; algo superior que habita em si, mas que tantas vezes tem de reprimir na sua vida (profana), por circunstâncias que apenas se alteram quando se encontra num templo, com os seus irmãos, onde pode (ou deveria poder, é isso que defendemos) deixar cair as máscaras que diariamente usa.

Diríamos, para finalizar, que existe um número cada vez maior de maçons a olhar para a Maçonaria “com olhos de ver”. Será talvez tempo da Maçonaria deixar de ser tão mal tratada (pelos próprios maçons, leia-se), mas também sabemos que não vai ser já p’rá semana.


P.S.: onde, no texto, se lê irmãos, pode ler-se irmãs, como é óbvio.

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A proposta (outra)


Se tivéssemos de definir o que é a Maçonaria, diríamos que é, acima de tudo e primeiramente, uma Ordem iniciática; adogmática sempre que possível, o que não quer dizer que não tenha dogmas, porque os tem; adoutrinária, uma vez que a sua doutrina, se é que se pode dizer que existe, foi construída por maçons diversos, e não directamente no seu seio; tradicional, isto é, que se insere num modelo organizacional de longa tradição; e, finalmente, que se baseia no ritual e em símbolos para a persecução do seu objectivo, objectivo esse que, por se tratar de uma Ordem iniciática, só pode ser a Iniciação de cada um dos seus membros, para que, individualmente ou em conjunto, possam ser elementos de grande valor (ou pelo menos de valor acrescido) no mundo profano.

Como já pudemos escrever anteriormente, à volta deste objectivo primevo, gravitam um sem número de consequências do trabalho maçónico individual e/ou conjunto, mas que não podem ser consideradas como objectivos da maçonaria, ainda que algumas dessas consequências devam estar presentes, sem excepção possível, posto que sem elas dificilmente se poderá dizer que se está a fazer, ou a praticar, Maçonaria. São elas, por exemplo, a Solidariedade e a Fraternidade, entre outras, mas que são, como dissemos e voltamos a reafirmar, consequências do trabalho maçónico, e não o seu objectivo. Em todo o caso, é bom que se reforce esta ideia de que, se ao se praticar Maçonaria não surgirem naturalmente a Solidariedade e a Fraternidade, é porque não se está a fazer Maçonaria. No entanto, o inverso não se aplica, isto é, ao praticar-se a Solidariedade ou a Fraternidade não se está, ipso facto, a fazer-se Maçonaria. Seria bom, também, que se entendesse isto, para que se deixe de dizer, por exemplo, aquele chavão idiota: fulano de tal, mesmo que não tivesse entrado na Maçonaria, já era maçon… Ser-se maçon não é ter-se a exclusividade da solidariedade ou da bondade ou de outras boas qualidades. Sobre isto escreveremos um dia, ainda que já tenhamos chegado perto do que queremos dizer, aqui.

Para além disso, a Maçonaria, ao contrário do que dizem aqueles que a vêem (à Maçonaria) em tudo o que é sítio, é algo muitíssimo específico, pelo que para a sua prática têm de estar reunidos diversos requisitos, como sejam, de entre outros, a reunião em Loja, com um ritual específico, e o uso de uma indumentária particular.

Depois, estando estas circunstâncias reunidas, é preciso pensar-se naquilo que se irá fazer nesses preparos, que muitos consideram totalmente desadequados e/ou anacrónicos. Será que fazem sentido todas estas “extravagâncias” para se falar sobre algo que se pode discutir à mesa do café, ou numa sala de conferências (durante uma conferência, entenda-se), ou, até, no sossego de uma sala de estar, rodeado dos mais próximos amigos? Parece-nos que a resposta a esta pergunta será, tendencialmente, um não redondo – apesar de acharmos que a sala de estar, em reunião com os mais próximos amigos, se trata de um cenário extremamente atraente.

Assim, baseados no que pudemos expor acima, parece-nos que a escolha dos temas a serem debatidos em sessão maçónica deve ser absolutamente criteriosa; temas essencialmente de índole maçónica, mas também outros, cuja a análise pode ser beneficiada pela “claridade da Luz Maçónica”. Este universo de temas, parece-nos, está longe de ser limitado, não só pela extensíssima simbólica que a Maçonaria oferece, como também pela tal claridade que beneficiará a análise de outros temas, que normal e naturalmente associamos à Maçonaria.

Acrescentamos, em todo o caso e sem pudor, que terá de haver limites (relativamente) bem definidos para a escolha dos temas – escolha essa que já a dissemos absolutamente criteriosa; limites que terão de ir mais além do que aqueles que estão já definidos ab originepela existência dos vários graus no percurso maçónico, e pelos símbolos que a cada um correspondem; limites que terão de ir mais além do que aqueles que se encontram nos Landmarks e Constituições, por exemplo; limites, diríamos, de extrema importância para que não se corra o risco de, ao julgar-se que se está a “fazer Maçonaria”, se esteja, de facto, a fazer-se outra coisa qualquer…

Recuperado uma ideia que já havíamos desenvolvido aqui, se nos permitirem, procuraremos dissecar um pouco mais, trazendo novamente a lume ou chamando a atenção para a diferença – nem sempre notada, mas que é insofismável – que existe entre uma associação profana, tutelar, e responsável pela gestão de património material e de tudo o que a isso é inerente, e a organização maçónica que operará no seu seio. Ainda que em muitos casos, muitos as confundam, não são a mesma coisa, nem podem ser, pois são de naturezas diferentes.

Uma, é uma associação profana, cujas preocupações só podem ser desse nível (profano) e a outra, que se aproveita (no bom sentido) da estrutura que esta gere, é de natureza simbólica, iniciática e espiritual, e serão essas, naturalmente, as suas preocupações. Temos dúvidas de que sejam indissociáveis essas duas associações. Parece-nos que, por princípio, até o podem ser: uma organização maçónica pode perfeitamente existir per si, sem que qualquer organização profana a tutele. Mas não é a isto que se assiste no panorama maçónico nacional, grosso modo.

Assim, normalmente assiste-se à existência da referida associação profana, à qual, por inerência de se haver adentrado a organização maçónica por esta tutelada, todos pertencem. No entanto, esta última terá, no nosso entender, e parece-nos que isto é pacífico, precedência sobre aquela. Ou seja, pressupõe-se que será mais importante, para o maçon, a organização maçónica e, em particular, a sua Loja, do que propriamente a associação profana que a rege. Sobre essa, sabe-se que, como qualquer outra associação profana, precisará de ter um número de pessoas disponíveis para preencher alguns cargos de responsabilidade, e sabe-se, até, que algumas dessas pessoas nem têm necessariamente de ser maçons, tal como aquelas que trabalham nas Secretarias, por exemplo.

Assim, não será disparatado supor que, para muitos maçons, ou pelo menos para alguns, aquilo que se passa com a associação profana tenha pouca importância, ou nenhuma, desde que o trabalho realizado por essa associação seja bem feito e que contribua para a manutenção dos espaços e demais circunstâncias necessárias às reuniões maçónicas. Supor o contrário, isto é, supor que todos estarão ou terão de estar interessados nessa gestão profana, é que nos parece uma suposição errada e mesmo abusiva.

No entanto, aquilo que nos foi dado a presenciar e a conhecer – haverá excepções, naturalmente – foi o triste espectáculo de ver confundidas, pelos seus membros, estas duas associações ou organizações distintas. Esta confusão dá assim lugar a que sejam discutidos, em sessão maçónica, assuntos que se referem, em exclusivo, à associação profana, que por serem dessa natureza (profana), não podem, sob pena de se deixar de estar a “fazer Maçonaria”, ter lugar dentro de um templo Maçónico; isto devido, também, mas não só, à incompatibilidade técnica que já pudemos anteriormente assinalar. Esta discussão de temas relacionados com a associação profana não está, entenda-se, posta em causa. Como é óbvio, deve e tem mesmo de ser feita, mas em ambiente, ou de forma totalmente diferente, defendemos nós. Esta defesa é alicerçada, não só por tudo o que pudemos expor acima, mas também por uma razão de eficácia que, no nosso entender, fica sobejamente comprometida pela discussão de tais temas em sessão maçónica.

Assim, gostaríamos de propor, a bem da Ordem Maçónica em geral – se nos for permitida tal arrogância, mas essencialmente como conclusão deste texto –, que fosse avaliada ou considerada a ideia de que o debate de “assuntos administrativos” pudesse passar a ser feito fora das sessões, e por pessoas das Lojas que sejam, ora nomeados e eleitos para tal, ou que para isso se predisponham. Estamos certos que facilmente se constitui este grupo de entre os membros de uma Loja, que merecerá a total confiança dos restantes, para que possa tomar as decisões indispensáveis ao bom funcionamento das oficinas e, por extensão, da Obediência.

As sessões maçónicas, essas, ficariam em exclusivo, para a prática daquilo que todos concordaram, por princípio, ir fazer, e que é, claro está, Maçonaria.

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O (fim do) equívoco e a proposta


[Este texto, antes de ser escrito, talvez necessitasse de um maior período de maturação da(s) ideia(s) que pretende transmitir, mas aqui vai.]

Há dias, demos conta de um eventual equívoco que pode surgir após a constatação do facto, já pouco questionável, de que James Anderson e os seus compinchas nada têm a ver com as “verdadeiras” corporações de pedreiros (medievais) e, como tal, nada poderiam saber dos segredos por estas veiculados. Sabe-se hoje que Anderson (e os seus compinchas) terá fabricado uma história para atribuir antiguidade (e credibilidade) a um grupo que estava a surgir naquele momento: a Maçonaria (especulativa). O próprio dia 24 de Junho de 1717 tratar-se-á de uma data meramente  simbólica, tal como o será, avançamos nós, o número de “lojas” que se terá reunido, para formar a Grande Loja de Londres (e Westminster): 4. Sobre este assunto valerá a pena ler alguns capítulos do livro “A Saga dos Maçons” de Marie-France Etchegoin e Frédéric Lenoir, editado pela Aletheia e o artigo “As Origens da Maçonaria Especulativa: as teorias actuais” de Roger Dachez, traduzido por Jorge P. Branco, que se encontra no nº15 da revista “Grémio Lusitano”, 1º semestre de 2010.

A ideia que pretendemos transmitir com este texto é a de que Anderson, ao fazer-se passar por uma coisa que não é, não quer dizer, necessariamente que essa coisa, pela qual ele se quer fazer passar, exista de facto. Clarificando (ou complicando), se alguém, por qualquer razão obscura, se quisesse fazer passar por amolador de lâminas de sabres de luz (daqueles usados na “Guerra das Estrelas”), mas, de facto, não o sendo, não quer dizer que existam amoladores de lâminas de sabres de luz…

Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria, que faz remontar, nada mais nada menos, a «Adão, o nosso primeiro antepassado» e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que a Maçonaria remonte a tais tempos. Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria, da qual Moisés havia sido Grão-Mestre e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que Moisés tenha sido Grão-Mestre da Maçonaria. Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria ou das corporações de pedreiros (livres), depositários de segredos de profundo sentido iniciático, responsáveis também pela construção das grandes Catedrais góticas e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que essas corporações (cuja existência não pomos em causa, como é óbvio) fossem depositárias de quaisquer segredos iniciáticos (sendo que também não pomos em causa a existência de segredos de ordem técnica), e a responsabilidade da construção das Catedrais, julgamos nós, terá de ser encontrada mais a montante (já iremos desenvolver esta ideia).

O equívoco que encontrámos, em particular, prendeu-se com estes últimos, com os pedreiros e suas corporações, dos quais Anderson nada herda, como já vimos. Mas a questão que pomos é: haveria alguma coisa a herdar (ainda para mais no século XVIII)? A resposta que tendencialmente encontramos é que sim, que havia. Que nas ditas corporações haveria segredos de vária espécie, entre os quais segredos de carácter iniciático, os quais estariam a ser difundidos através da simbólica empregue nas construções diversas e, muito em particular, nas supra referidas Catedrais.

Nós, não pelo gosto de ser do contra, mas sim baseados na razão e na lógica, vimos defender o contrário. De facto, parece-nos muito pouco plausível que as corporações de pedreiros, uma das muitas corporações de ofício que existiram na Idade Média, estivessem na posse de quaisquer saberes “especiais”, para além daqueles específicos do seu ofício.

Parece-nos bastante mais sensato considerar que terá existido uma elite pensante e conhecedora, constituída não só por Nobres (pois muitos eram completamente iletrados), mas, mais certamente, por homens da Religião ou das Ordens Militares-Religiosas, que poderia até incluir mestres dos diversos ofícios, entre os quais o de pedreiro, naturalmente, e que procuraria difundir o seu saber, utilizando para tal as mais diversas formas. Num mundo de iletrados, a difusão através do livro seria sempre diminuta (para além de que, muitas das vezes, por este meio, teria de ser feita de forma críptica, para iludir censuras diversas), e será de admitir que terão sido usados outros meios para tal fim. Aquele que menos se terá deteriorado e do qual terão chegado até nós mais testemunhos, pelas suas características, foi o meio a cargo do pedreiro, o talhar da pedra, o registo em rocha da mais variada simbologia que se possa imaginar. Pedras e rochas talhadas, também e principalmente, para a construção, a soldo da Igreja, de Catedrais e, “com o dedo” dessa tal elite pensante, dizemos nós, repletas de simbólica que pretenderia difundir um saber arcano.

Esta ideia, ainda que fruto da mais pura especulação, parece-nos de maior sensatez do que aquela que pretende apresentar-nos um pedreiro que, após uma jornada de 12, 14, 16 horas de árduo trabalho, ainda terá forças para especular sobre os símbolos que vai talhando. Ou mesmo a outra ideia de que o pedreiro era “livre”, e que andaria de terra em terra a construir Catedrais. Isto é a sério, não só o ouvimos como já o vimos escrito: os pedreiros eram livres, literalmente, pois, ora construíam uma Catedral aqui, como logo a seguir pegavam em todos os seus utensílios e iam construir outra Catedral acolá… Nem sei se valerá a pena estar desconstruir tal ideia tão estapafúrdia, para além de que essa questão do “livre” também já está, hoje, mais ou menos resolvida; é ir ver. Ide.

Mas, voltando ao Anderson, valerá a pena dizer ainda que, ao fazer-se passar por algo que não era, reclamar uma herança que não lhe pertencia, de facto não lhe ficou nada bem. Mas outros já o haviam feito antes dele e muitos o fizeram depois. Não são poucos os grupos que reclamam para si as mais remotas origens; diríamos que são mesmo muitos! Arriscaríamos até dizer que, no panorama dos grupos ou ordens tradicionais do Ocidente (que é a realidade que melhor julgamos conhecer), todos o fizeram, mesmo aqueles pelos quais nutrimos as maiores simpatias.

Assim, ao reprovar o que fez Anderson, teremos de reprovar templarismos, rosacrucianismos, martinismos, druidismos e outros…

Valeria a pena que, propomos nós, ao invés de reprovar Anderson, olhássemos para o que nos legou com outros olhos, interpretando os seus escritos, atribuindo-lhe uma dimensão simbólica, em vez de literal; sendo que esta leitura literal talvez nunca tenha sido pretendida pelo próprio… Excluem-se desta ideia de leitura simbólica, as Constituições propriamente ditas, claro está.

Por outro lado, voltamos a dizer, Anderson, ao fazer-se passar por herdeiro das corporações de pedreiros e dos seus segredos, e não o sendo, não quer dizer que essas tais corporações fossem depositárias de quaisquer segredos (pedimos desculpa pela repetição). Valerá a pena referir que se desconhece (não quer dizer que não tenha existido), à altura em que Anderson faz conhecer a Grande Loja de Londres, quaisquer movimentos de contestação. Pelo contrário, para as corporações de pedreiros existentes na altura, de que Anderson se fez valer e que se apresentavam em avançado estado de decrepitude, terá sido até muito bem visto o interesse desta “nobre” gente nas suas organizações, que há muito recebiam ilustres no seu seio, a título meramente honorífico, como também se sabe. A contestação existe, sim, muito mais tarde, em 1756, quando surgem os “Antigos”, mas isto são já disputas no seio da Maçonaria (especulativa)…

***

Por fim, se nos deixarem, gostaríamos de ir ainda um pouco mais longe nesta reflexão. Para tal, gostaríamos de apresentar ainda uma outra proposta…

E o que propomos é o seguinte: contestando ou não Anderson, em vez de andarmos a buscar as raízes da Maçonaria nos Cavaleiros Templários (o que tantas vezes se faz, e por isso aqui o referimos) ou nos construtores de Catedrais, como eventualmente o tiveram de fazer os maçons dos séculos XVIII e XIX, as buscássemos, hoje, nos maçons do Séc. XVIII que, incansavelmente, se predispuseram a encontrar um sistema de iniciação baseado numa simbólica muito rica, alicerçado em rituais, também estes riquíssimos de informação vária, de cariz quase sempre religioso e cristão, espraiado, por fim, em volumoso número de graus e qualidades. Esse exaustivo trabalho começa a dar frutos no dealbar do século XIX, mas também um pouco antes, com a sistematização dos graus e rituais mais usados desde então, como é o caso do Rito Francês ou Moderno e do Rito de York, estes um pouco mais velhos (ainda do século XVIII), ou do Rito Escocês Antigo e Aceite e do Rito de Emulação (estes já do século XIX), para referirmos apenas os mais conhecidos / trabalhados. Propomos, então, que seja aí que se perscrute, que se investigue as “raízes” da Maçonaria como a conhecemos hoje e não em eventuais heranças de “pedreiros operativos” ou até, mesmo que os separem quatro séculos, de Cavaleiros do Templo.

A proposta fica feita. Até logo.

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O Erro


Há um erro, com muitos anos, no ritual de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceite, que não é, como todos sabemos, nem escocês, nem antigo, nem aceite, e que, se calhar, estava na altura de deixar de ocorrer.

Trata-se de uma passagem que diz respeito ao Segundo Vigilante, quando lhe é perguntado o porquê de ocupar aquele lugar no templo. A resposta é: «para melhor observar o Sol no seu Meridiano…». Isto, por várias razões, está errado, não faz sentido.

Primeiramente, a referência que temos é a de estarmos no Hemisfério Norte e, como tal, a jornada do Sol se fazer a Sul; nasce no Oriente, faz a sua viagem, observável se nos virarmos a Sul, com as costas para Norte, e põe-se a Ocidente. É por esta razão que os Aprendizes se sentam a Norte, pois são aqueles que mais necessitados estão da Luz (do Sol). Quer isto dizer, muito simplesmente, que é da Coluna do Norte que melhor se “observa” o Sol, e não na Coluna do Sul.

Depois, temos excertos do próprio ritual de Passagem a Companheiro (sei que têm a mania de Elevar Companheiros e Exaltar Mestres, mas eu continuo a achar que se Passa a Companheiro e se Eleva a Mestre), nas quais é muito claro quando diz que o novo Companheiro, sentando-se agora na Coluna do Sul, passa a ser, também ele, um foco de Luz para os aprendizes…

Este erro dá aso a situações caricatas, como aquelas em que o Orador toma a palavra para saudar o novo Companheiro, dizendo-lhe que agora passa a observar de uma forma mais favorável o Sol(!), quando há poucos minutos lhe havia sido dito que, a partir de então, passa a ser, também ele, uma Luz ou, melhor dizendo (para não nos confundirmos), um foco luminoso da Loja…

[Com a enorme profusão de ritos escoceses antigos e aceites que existe, convirá talvez referir que esta ideia (a de que o Companheiro passa a ser um “foco luminoso”) talvez não esteja tão explícita nuns como está noutros, mas, por exemplo, quando se diz que passará, doravante, a ajudar os Aprendizes a suprir os seus erros, parece-nos que a ideia está próxima.]

Assim, depois de todas estas reflexões e constatações, tivemos de ir ver se dávamos com a solução para este problema e, de facto, não foi difícil encontrá-la. Bastou consultar os rituais em inglês.

Mas antes, vale a pena acrescentar que este é um erro que se mantém há mais de cem anos, tanto em português como em francês (será que foi aí que surgiu o erro?) , mas o inglês é esclarecedor. O que diz então o ritual na língua de Shakespeare? «To mark the sun at the meridian…».

Ei-la, a subtil, mas determinante diferença.

Podemos, hoje, apenas especular o porquê de ter tido lugar este erro. Talvez se tenha perdido a partícula apassivante: «Para melhor SE observar o Sol no seu Meridiano», o que, ainda assim, poderia induzir em erro.

O que faz sentido é que, o Segundo Vigilante, a meio da Coluna do Sul, esteja a marcar o lugar do Sol que, naquele ponto, atinge o Meridiano, o que, a ser observado do Norte, equivale a dizer que atinge o seu Zénite. Que me perdoem os astrofísicos, se estiver a dizer um grande disparate. Julgo que não.

Assim, a proposta é simples: acabemos com este erro grosseiro nos rituais do REAA, ou noutros em que tal apareça.

Para que ocupa aquele lugar o Segundo Vigilante? «Para marcar o Sol no Meridiano…», ou algo muito parecido com isto, é o que está correcto.

Não tenhamos pudor em alterar o que está errado num ritual. Como nos dizia um amigo, os rituais não são textos “Revelados”; foram escritos por homens e traduzidos por idiotas… homens, queria eu dizer.

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Elevação


Certo dia, alguém nos disse, em resposta a um argumento que estávamos a querer fazer valer (oh idiotice!), que não encontrava a ideia de elevação no ritual maçónico. Encontrava essa ideia noutros movimentos/tradições, enumerando algumas de cariz oriental, mas que no ritual maçónico, de facto, não encontrava essa ideia. Nós argumentávamos que sim, que quando se pratica o ritual, existe, ainda que possa ser de forma implícita, uma ideia de elevação, ou de algo que pode ser traduzido por essa palavra; mas, seguramente, julgamos nós, não devemos ser a “mesma pessoa” que somos fora do Templo. Devemos elevarmo-nos; é costume acrescentar que até o humor, que muitas vezes “invade” os templos (e ainda bem), deve ser um humor com elevação, com “categoria”…

Ainda que muito possam argumentar em contrário, estamos terminantemente convictos desta ideia e podemos mesmo reforçar tal posição com passagens do ritual; as tais que não foram encontradas pela entreposta pessoa.

Assim, é no ritual que, quando se indaga o que fazem os maçons (no templo), se responde que «cavam masmorras ao vício e ELEVAM templos à virtude». Sim, estamos conscientes que é um argumento muito fraquinho; serve apenas para mostrar que a palavra está lá; e arriscamo-nos a dizer que, dessa forma, também lá está a ideia.

Mas há outro argumento com mais solidez, mas antes de o apresentar temos de fazer a devida vénia a JLS. Feita a vénia, avancemos…

Então, a que horas começam os maçons os seus trabalhos?

Ao meio-dia. Pois.

Sabemos que anda por aí a ideia de que o meio-dia simboliza a idade adulta(!) ou idade “madura”. Bom, vamos lá ver se nos entendemos, essa “coisa” da idade já está perfeitamente definida nos graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. Não nos parece que faça sentido uma sobreposição de simbolismos. Não podemos dizer que o Aprendiz (ou o Companheiro ou o Mestre) tem X anos e depois ao meio-dia, quando começam os trabalhos, já é adulto.

Depois, aquela outra ideia de que ao meio-dia não há sombra… onde? Só se fôr no Equador. E, para além disso, os trabalhos decorrem, simbolicamente, claro está, do meio-dia à meia-noite. Mesmo que começassem sem sombra, ali por volta da uma da tarde, já lá estava ela, a maldita.

Assim, depois de se esquecerem estas suposições estapafúrdias, talvez possamos entrever a ideia que, mais certamente, pode ser encontrada pela análise ao simbolismo de que os maçons começam os trabalhos ao meio-dia, e que será o facto de que, nessa altura, ambos os ponteiros do relógio apontam, para onde?, isso mesmo, para cima, para o alto. É hora, então, de “acertar as agulhas”; é hora então de nos elevarmos, olhando para cima, tal qual ponteiros do relógio (se se puserem aí com conversas de relógios digitais e mais não sei o quê, eu juro que me vou embora).

E os trabalhos terminam à meia-noite, pois, após os trabalhos, que terão decorrido, assim se espera, de forma justa e perfeita, é natural que todos estejam “alinhados” com o alto.

A simbólica maçónica presta-se, claro está, a um sem número de interpretações, muitas das vezes tão díspares que chegam a ser antagónicas (já para não falar das ideias que existem para o que é a Maçonaria, das quais se pode dizer exactamente o mesmo). Parece-nos, no entanto, que todo o caminho de desvelar do símbolo nos leva no sentido do simples; não do simplista, mas do simples. Contudo, o caminho que nos leva ao simples é extremamente complexo. Mas é o caminho, pois a resposta, a meta só pode ser… simples.

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A Grande Falácia


Sabeis o que é uma grande falácia? As conquistas históricas da Maçonaria, eis o que é uma grande falácia.

À pergunta «o que é que a Maçonaria conquistou em prol da Humanidade(?)», só pode existir uma resposta: nada!

Já à pergunta «em que conquistas em prol da Humanidade estiveram envolvidos maçons(?)», aí já se pode responder: muitas!

Mas uma coisa não pode ser confundida com a outra; não podemos confundir os maçons com a Maçonaria.

A Maçonaria é uma entidade abstracta, não existe per si. Como tal, não pode arrogar qualquer conquista. Claro que isto não é assim tão linear. Nem todos os portugueses embarcaram e participaram nos Descobrimentos, no entanto hoje estudamos os Descobrimentos portugueses (bom, agora querem que estudemos a “Expansão Ibérica”, misturando alhos com bugalhos, mas isso não vem ao caso). Estas generalizações, no entanto, são vulgares, comuns. Mas cabe-nos, enquanto Homens de Razão, destrinçar estas por vezes subtis, mas indiscutíveis diferenças.

Pelo facto de um maçon ou um grupo de maçons, juntamente com não-maçons, terem alcançado esta ou aquela vitória civilizacional, não se pode, de uma forma simplista, atribuir tal feito à Maçonaria. Isto porque uma moeda não tem só uma face. Se um episódio honroso, levado a cabo por um ou vários maçons pode ser reclamado pela Maçonaria, então também o têm de ser todos os actos opróbrios e infames perpetrados por inúmeros (que se dizem) maçons.

Para se falar em termos bem concretos… não se pode dizer que a implementação do Sistema Nacional de Saúde (usamos este exemplo para não referirmos a implantação da República [que era o que seria de esperar], pois considerar que tal foi uma “conquista” pode ser amplamente discutido) foi uma conquista da Maçonaria (foi, isso sim, de um maçon, com a ajuda de muitos outros maçons e não-maçons, homens e mulheres) e depois dizermos que a Maçonaria nada teve a ver com o massacre levado a cabo por Anders Breivik, um Venerável Mestre Maçon.

(Poderá dizer-se: «mas esse fulano nada tinha de maçon, é uma vil pessoa». Mas a questão é também essa: a condição de maçon não é, nunca foi, nem nunca será, determinante do carácter de uma pessoa. Questão esta que será talvez melhor analisar noutra altura…)

Assim, esta distância, este desvinculo entre o que é o maçon e o que é a Maçonaria, o fim desta confusão, é absolutamente vital para a preservação da Honra e do Bom Nome da Ordem Maçónica, essa entidade abstracta. E o trabalho, do qual resultará o fim desta confusão, deverá ser encetado dentro da Maçonaria, nos templos maçónicos. Aí não pode haver lugar para este engano, para este equívoco. As vantagens de tal tomada de consciência são muitas, eis algumas:

Primeiramente, cria-se uma massa crítica; criam-se argumentos válidos, refutáveis como o são todos, mas justos. E não se cai no mesmo erro que o comum e ignorante dos mortais…

Depois, afasta a bazófia, a vaidade, a vanglória do maçon por conquistas que, de facto, não pertencem nem à Ordem e muito menos ao próprio.

Por fim, arrepia caminho e faz compreender que, se os maçons do passado, a quem se furta as suas conquistas, atribuindo-as à Maçonaria, estivessem à espera de que a Ordem Maçónica, essa entidade abstracta, fizesse alguma coisa, ainda hoje nada se tinha feito.

Assim, a tomada de consciência de que os maçons e a Maçonaria não são a mesma coisa, traz vantagens evidentes, alicerçadas num maior saber, numa maior humildade e num estímulo à acção. As vantagens de se continuar a confundir uma coisa com a outra, não as consigo descortinar…

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As Obediências “matam” a Maçonaria


Há quem defenda que é praticamente impossível praticar-se Maçonaria estando-se agregado a uma Obediência. É mesmo dito que «as Obediências “matam” a Maçonaria». Infelizmente, nos dias que correm (ou será, talvez, desde sempre), esta ideia não deve estar muito longe da realidade.

Se isto, porventura, causa estranheza, não é, no entanto, assim tão estranho, pois a existência de Lojas Selvagens é uma constante ao longo da História da Maçonaria, e hoje existe mesmo uma Federação que agrupa Lojas “Livres e Soberanas” (a conferir aqui), pois são muitos aqueles que deixaram de se rever nas práticas das (várias) Obediências.

As razões que estão por detrás desta ideia são diversas, mas existirá uma de onde todas as outras derivam. Mais uma vez, trata-se de confundir uma coisa com a outra…

Assim, confundem-se, bastas vezes, para não dizer sempre, os aspectos organizativos e administrativos, passe a redundância, de uma Obediência Maçónica com a Maçonaria, propriamente dita. Ora, uma coisa está longe de ser a outra. Ainda assim, não são poucas as sessões de Loja que se prendem com aspectos unicamente burocráticos e, por consequência, profanos, que, também não poucas vezes, nem dizem respeito directamente à Loja, mas sim à Obediência. E, sendo de carácter administrativo, que é o mesmo que dizer profano, não cabem num Templo e, por esta razão, mas também por outras, não são Maçonaria.

Perder-se (sim é mesmo do verbo “perder” de que se trata) uma, duas, três e, por vezes, mais horas a discutir se este ou aquele maçon deve ou não ser expulso; se a Obediência deve ou não ter um papel mais activo na Sociedade; se há ou não dinheiro nos cofres; tudo isto são assuntos de importância e que devem ser discutidos, mas não em sessão de Loja, pois não são, vamos repeti-lo, Maçonaria. Para discutir tais assuntos, não é preciso avental, nem luvas, nem bateria de malhetes, nem orações (nos vários sentidos da palavra) e muito menos um ritual elaborado. Já a Maçonaria, essa, não se pratica sem o avental e as luvas, sem as velas e os malhetes, e sem os rituais apropriados. Sem tais elementos, até se podem fazer muitas coisas, mas não são Maçonaria (e isto levar-nos-ia num caminho que merece uma outra reflexão e um texto próprio, mas que não é este).

Costumamos usar uma imagem, que não é perfeita, mas que dá uma ideia do que acontece na Maçonaria Obediencial: a Obediência é o Mar e as Lojas são ilhas. Mas as Lojas sofrem muitas vezes (demasiadas, diríamos nós) inundações, para não falar de autênticos tsunamis, vindos desse Mar que devia ser calmo e pacífico ou, não o sendo, não deveria “transpirar” outra coisa que não fosse calma, paz e tranquilidade; não será à toa que algumas Obediências apelidam o seu Grão-Mestre de “Sereníssimo”…

Acontece ainda que, derivando do mau exemplo que a Obediência apresenta, emitindo, por exemplo, um sem número de decretos de carácter profano, que as Lojas são obrigadas a ler, entre outras situações caricatas (para não dizer, absurdas), as próprias Lojas acabam por, nas suas sessões, perder tempo com questiúnculas menores, de administração e organização, que, não será de mais repetir, não são Maçonaria!…

Assim, e infelizmente, se calhar tenderemos a concordar com a ideia de que as Obediências matam a Maçonaria, mas acreditamos (talvez por ingenuidade) que não é forçoso que assim seja, se houver vontade de que esta não morra de morte tão inglória…

Assim, na esteira de um Jules Boucher, não nos vamos coibir de aqui deixar uma ideia, de fazer uma proposta: aproveitem-se os ágapes ou outras reuniões informais, pré ou pós-sessões, ou noutras datas, para discutir assuntos de ordem administrativa e profana e para se lerem decretos do Grão-Mestre e/ou outro expediente, por exemplo. E deixem-se as sessões em exclusivo para a prática maçónica. Esta ideia de “prática maçónica” pode, também ela, ser demasiado ambígua (por incrível que pareça, ao fim de quase três séculos de actividade, não há ainda uma ideia clara e definitiva do que é a Maçonaria…). Mas, para facilitar, e talvez como intróito a uma outra reflexão, diríamos que a Maçonaria é aquela prática em que é indispensável o uso de aventais, luvas, velas, malhetes e ritual, e em que tal faz sentido. Outra prática, que poderá dispensar todos ou parte destes elementos, já não é Maçonaria.

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