Uma impossibilidade técnica


É possível notar uma “curiosidade”, chamêmos-lhe assim, que ocorre comummente nos movimentos tradicionais maçónicos ou outros semelhantes.

Acontece, bastas vezes, confundir-se o Objectivo, a Meta do Caminho, do percurso maçónico (ou outro, rosacruciano, por exemplo), com o próprio caminho em si. No entanto, chegar ao fim do Caminho e percorrer o Caminho não é a mesma coisa (já explorámos esta mesma ideia, num post anterior, ainda que de outra forma…).

Mesmo que muitas vezes nos digam que o importante não é o fim, mas sim percorrer o Caminho, o que não deixa de ser uma ideia interessante, contudo não há dúvida de que mais importante será sempre, pelo menos, saber para onde estamos a caminhar.

Assim, consideramos que não podemos confundir o Objectivo da Maçonaria, que é muito claro, e que é, todos o sabemos, a Iniciação, ou a Iluminação, ou o Despertar do Adepto, deixamos a cada um a preferência na terminologia; não podemos confundir isto, dizíamos, com o caminho a percorrer para lá chegar. Por exemplo, não podemos confundir a beneficência, indispensável, naturalmente, no percurso maçónico, com o objectivo da Maçonaria. Não podemos confundir o amor ao próximo, nem tampouco o acumular de conhecimentos, e ainda menos o repetir de rituais de uma forma vazia e muitas vezes displicente, julgando que dessa forma se está a fazer Maçonaria; não se pode confundir tudo isto com o verdadeiro e, arriscaríamos a dizer, único Objectivo da Maçonaria.

Porém, definir o que é a Iniciação é muito mais complexo do que à primeira vista poderá parecer – ou se calhar é tão simples, mas a nossa mente que sempre complica, não o consegue imediatamente apreender. Assim, como é muito difícil de definir o que é a Iniciação, foi-se substituindo esta pelo caminho que nos levaria, eventualmente, à mesma…

Julgamos que já fomos claros o suficiente. Avancemos…

No entanto, ainda que seja difícil definir o que é a Iniciação, nada nos impede de tentar fazê-lo… Imediatamente nos afloram à mente os conceitos de Silêncio Interior, a Plenitude do Vazio, o Eterno Presente, etc, etc. Conceitos, também estes, nada fáceis de apreender, é certo…

Mas houve alguém que quis levar tudo isto para um laboratório, imagine-se.

A experiência, levada a cabo nos anos 70 do século XX, consistiu em comparar a reacção de um grupo de pessoas “vulgares” com a reacção de um grupo de avançados monges do budismo Zen, quando ambos eram sujeitos a um choque eléctrico, ocorrendo este poucos segundos depois do toque de uma pequena campainha. Esta rotina foi repetida várias vezes.

Os cientistas, que levaram a cabo a experiência, puderam registar elevados níveis de ansiedade, no primeiro grupo, logo após o tocar da campainha, antecipando, naturalmente, o pequeno, mas perfeitamente perceptível e algo doloroso choque eléctrico. Por outro lado, o grupo de avançados monges Zen, naturalmente em meditação, não apresentava qualquer registo de ansiedade após o tocar da campainha. Esta experiência levou os cientistas a concluir (ou pelo menos a especular) que, neste estado meditativo, os monges Zen “perdem” a habilidade de aprender com as experiências vividas. Encontram-se num estado de eterno presente, em que cada momento é vivido sem conhecimento do passado.

Outra experiência muito semelhante, obteve o mesmo resultado. Um grupo de pessoas “vulgares” e um grupo de monges Zen foram submetidos ao escutar de um toque de uma campainha, com intervalos regulares. De 2 em 2 minutos, ouviam este toque. O primeiro grupo, depois da “surpresa” inicial, foi-se habituando ao toque da campainha e, passado pouco tempo, já praticamente não apresentava qualquer reacção ao referido toque, chegando mesmo a ignorá-lo. Também neste caso, o grupo de monges, em meditação, apresentava sempre a mesma reacção de surpresa a cada toque da campainha. A conclusão da experiência é a mesma…

Naturalmente, não vamos afirmar que estes monges haviam atingido a iluminação, mas não será falso referir que atingiram um estado meditativo que os permitiu encontrar um novo estado de consciência, ampliando-a. E, isto sim, é um dos objectivos, entre outros, do Caminho Iniciático: o ampliar da Consciência.

Claro que a tradição Oriental tem os seus métodos e nós temos os nossos, mas a meditação é uma ponte, é algo que nos une, e este estado meditativo, se bem que para atingi-lo serão necessárias ferramentas que estarão mais facilmente à disposição do estudante oriental, pode servir como símbolo ou como uma luz sobre os trabalhos num Templo Maçónico.

A especulação filosófica é incontornável na Maçonaria, e ainda bem que assim é, mas os momentos de Meditação ou, se preferirmos, uma vez que falamos em templo, os momentos de Contemplação não devem ser descurados e devem fazer parte dos trabalhos, julgamos nós.

A ideia de estar em Templo em verdadeira Presença, de viver o Momento Presente, e tal não ser o acumular de uma série aleatória de eventos que aí nos levou, ou ainda, usando uma expressão bem portuguesa, estar em Templo de Corpo e Alma deveria sempre nortear os trabalhos maçónicos.

É por tudo o que viemos a expor acima que consideramos que, ao entrar num Templo Maçónico, se devem deixar as personalidades à porta. Deve levar-se o mínimo essencial, ou mesmo nada, da vida profana para dentro dessas paredes; e quem diz da vida profana, diz do mundo profano no seu todo. Este deve ser deixado fora do Templo. Tal deve ser feito, considerando o que se disse acima, pois o Templo é um local de Presença (ou de Presente, que seria dizer a mesma coisa), de Contemplação, de contacto com o mais Alto em cada um.

Mas tal deve fazer-se, também, por outras razões.

Primeiramente, porque muitas vezes ao invocar a vida profana, estamos verdadeiramente a invocar a nossa pessoa, o nosso ego, o nosso pequeno eu. «Aconteceu-me isto, no outro dia… eu isto, eu aquilo… escrevi isto, disse aquilo, eu, eu, eu…» Já dizia o outro: «Sabes como encontrar o Diabo? É aquele que está sempre a dizer “Eu”»…

Assim, se se está num lugar sagrado a procurar aquilo que de mais elevado habita em cada um, de que serve andarmos apegados ao nosso pequeno eu?

Depois, basta saber o que a palavra profano quer dizer… Esta palavra provém do latim e quer dizer, muito simplesmente, “fora do Templo”. Pro, diante ou fora de, e Fanum, Templo, lugar sagrado. Assim, é impossível trazer algo profano para dentro de um Templo, sem lhe retirar o seu carácter sagrado. Ou, uma imagem ainda mais violenta, ao trazermos algo do mundo profano, para um espaço sagrado, estamos a fazer com que todos os que aí se encontram em Contemplação, em Meditação, sejam retirados dos seus lugares e colocados do lado de fora do Templo. Imagine-se a violência espiritual que isto implica…

Por fim, para reforçar a teoria que temos vindo a descrever, e que talvez possamos resumir nesta frase: num Templo Maçónico (ou qualquer outro local sagrado ou sacralizado) não deve haver lugar para a vida profana ou para assuntos do mundo profano, pois tal afasta-nos do Caminho da Iniciação, vamos ainda referir o exemplo dado pela Grande Loja Unida de Inglaterra ao construir a sua sede em Londres: o famoso Freemasons’ Hall.

Certamente estavam imbuídos de ideias semelhantes às que expressámos supra, e de outras, certamente, quando procuraram isolar o Templo principal deste edifício, o mais que lhes foi possível. Isto é, o magnífico Templo que alberga mais de 1700 maçons, é apenas acessível pela sua impressionante porta principal, e por duas outras portas reservadas às mais altas figuras desta instituição maçónica, e as suas paredes estão o menos possível em contacto com as restantes paredes do edifício, que alberga ainda, a título de curiosidade, 21 outros templos.

Foi nos dito, na visita que qualquer pessoa (profano ou iniciado) pode fazer a este espaço, que assim, simbolicamente claro está, o Templo encontra-se fora deste Espaço e deste Tempo

Este último argumento, julgamos nós, seria suficiente para que se evitasse levar temas, assuntos, aspectos da vida profana para os templos maçónicos, pois, para além de tais temas nos afastarem do processo iniciático, estes templos procuram estar simbolicamente, como acabámos de ver, fora do Espaço e do Tempo…

No entanto, mais importante do que saber que não se deve fazer isto ou aquilo é saber e, essencialmente, compreender o porquê! E isso é essencial que se procure fazer, sempre. Recuperaremos esta última ideia num post futuro.

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