As Obediências “matam” a Maçonaria


Há quem defenda que é praticamente impossível praticar-se Maçonaria estando-se agregado a uma Obediência. É mesmo dito que «as Obediências “matam” a Maçonaria». Infelizmente, nos dias que correm (ou será, talvez, desde sempre), esta ideia não deve estar muito longe da realidade.

Se isto, porventura, causa estranheza, não é, no entanto, assim tão estranho, pois a existência de Lojas Selvagens é uma constante ao longo da História da Maçonaria, e hoje existe mesmo uma Federação que agrupa Lojas “Livres e Soberanas” (a conferir aqui), pois são muitos aqueles que deixaram de se rever nas práticas das (várias) Obediências.

As razões que estão por detrás desta ideia são diversas, mas existirá uma de onde todas as outras derivam. Mais uma vez, trata-se de confundir uma coisa com a outra…

Assim, confundem-se, bastas vezes, para não dizer sempre, os aspectos organizativos e administrativos, passe a redundância, de uma Obediência Maçónica com a Maçonaria, propriamente dita. Ora, uma coisa está longe de ser a outra. Ainda assim, não são poucas as sessões de Loja que se prendem com aspectos unicamente burocráticos e, por consequência, profanos, que, também não poucas vezes, nem dizem respeito directamente à Loja, mas sim à Obediência. E, sendo de carácter administrativo, que é o mesmo que dizer profano, não cabem num Templo e, por esta razão, mas também por outras, não são Maçonaria.

Perder-se (sim é mesmo do verbo “perder” de que se trata) uma, duas, três e, por vezes, mais horas a discutir se este ou aquele maçon deve ou não ser expulso; se a Obediência deve ou não ter um papel mais activo na Sociedade; se há ou não dinheiro nos cofres; tudo isto são assuntos de importância e que devem ser discutidos, mas não em sessão de Loja, pois não são, vamos repeti-lo, Maçonaria. Para discutir tais assuntos, não é preciso avental, nem luvas, nem bateria de malhetes, nem orações (nos vários sentidos da palavra) e muito menos um ritual elaborado. Já a Maçonaria, essa, não se pratica sem o avental e as luvas, sem as velas e os malhetes, e sem os rituais apropriados. Sem tais elementos, até se podem fazer muitas coisas, mas não são Maçonaria (e isto levar-nos-ia num caminho que merece uma outra reflexão e um texto próprio, mas que não é este).

Costumamos usar uma imagem, que não é perfeita, mas que dá uma ideia do que acontece na Maçonaria Obediencial: a Obediência é o Mar e as Lojas são ilhas. Mas as Lojas sofrem muitas vezes (demasiadas, diríamos nós) inundações, para não falar de autênticos tsunamis, vindos desse Mar que devia ser calmo e pacífico ou, não o sendo, não deveria “transpirar” outra coisa que não fosse calma, paz e tranquilidade; não será à toa que algumas Obediências apelidam o seu Grão-Mestre de “Sereníssimo”…

Acontece ainda que, derivando do mau exemplo que a Obediência apresenta, emitindo, por exemplo, um sem número de decretos de carácter profano, que as Lojas são obrigadas a ler, entre outras situações caricatas (para não dizer, absurdas), as próprias Lojas acabam por, nas suas sessões, perder tempo com questiúnculas menores, de administração e organização, que, não será de mais repetir, não são Maçonaria!…

Assim, e infelizmente, se calhar tenderemos a concordar com a ideia de que as Obediências matam a Maçonaria, mas acreditamos (talvez por ingenuidade) que não é forçoso que assim seja, se houver vontade de que esta não morra de morte tão inglória…

Assim, na esteira de um Jules Boucher, não nos vamos coibir de aqui deixar uma ideia, de fazer uma proposta: aproveitem-se os ágapes ou outras reuniões informais, pré ou pós-sessões, ou noutras datas, para discutir assuntos de ordem administrativa e profana e para se lerem decretos do Grão-Mestre e/ou outro expediente, por exemplo. E deixem-se as sessões em exclusivo para a prática maçónica. Esta ideia de “prática maçónica” pode, também ela, ser demasiado ambígua (por incrível que pareça, ao fim de quase três séculos de actividade, não há ainda uma ideia clara e definitiva do que é a Maçonaria…). Mas, para facilitar, e talvez como intróito a uma outra reflexão, diríamos que a Maçonaria é aquela prática em que é indispensável o uso de aventais, luvas, velas, malhetes e ritual, e em que tal faz sentido. Outra prática, que poderá dispensar todos ou parte destes elementos, já não é Maçonaria.

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2 respostas a As Obediências “matam” a Maçonaria

  1. Pingback: A proposta (outra) | initiatio – invenies occultum lapidae

  2. Virgilio Salvador diz:

    Concordo em absoluto.

    Virgílio Salvador

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