O Erro


Há um erro, com muitos anos, no ritual de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceite, que não é, como todos sabemos, nem escocês, nem antigo, nem aceite, e que, se calhar, estava na altura de deixar de ocorrer.

Trata-se de uma passagem que diz respeito ao Segundo Vigilante, quando lhe é perguntado o porquê de ocupar aquele lugar no templo. A resposta é: «para melhor observar o Sol no seu Meridiano…». Isto, por várias razões, está errado, não faz sentido.

Primeiramente, a referência que temos é a de estarmos no Hemisfério Norte e, como tal, a jornada do Sol se fazer a Sul; nasce no Oriente, faz a sua viagem, observável se nos virarmos a Sul, com as costas para Norte, e põe-se a Ocidente. É por esta razão que os Aprendizes se sentam a Norte, pois são aqueles que mais necessitados estão da Luz (do Sol). Quer isto dizer, muito simplesmente, que é da Coluna do Norte que melhor se “observa” o Sol, e não na Coluna do Sul.

Depois, temos excertos do próprio ritual de Passagem a Companheiro (sei que têm a mania de Elevar Companheiros e Exaltar Mestres, mas eu continuo a achar que se Passa a Companheiro e se Eleva a Mestre), nas quais é muito claro quando diz que o novo Companheiro, sentando-se agora na Coluna do Sul, passa a ser, também ele, um foco de Luz para os aprendizes…

Este erro dá aso a situações caricatas, como aquelas em que o Orador toma a palavra para saudar o novo Companheiro, dizendo-lhe que agora passa a observar de uma forma mais favorável o Sol(!), quando há poucos minutos lhe havia sido dito que, a partir de então, passa a ser, também ele, uma Luz ou, melhor dizendo (para não nos confundirmos), um foco luminoso da Loja…

[Com a enorme profusão de ritos escoceses antigos e aceites que existe, convirá talvez referir que esta ideia (a de que o Companheiro passa a ser um “foco luminoso”) talvez não esteja tão explícita nuns como está noutros, mas, por exemplo, quando se diz que passará, doravante, a ajudar os Aprendizes a suprir os seus erros, parece-nos que a ideia está próxima.]

Assim, depois de todas estas reflexões e constatações, tivemos de ir ver se dávamos com a solução para este problema e, de facto, não foi difícil encontrá-la. Bastou consultar os rituais em inglês.

Mas antes, vale a pena acrescentar que este é um erro que se mantém há mais de cem anos, tanto em português como em francês (será que foi aí que surgiu o erro?) , mas o inglês é esclarecedor. O que diz então o ritual na língua de Shakespeare? «To mark the sun at the meridian…».

Ei-la, a subtil, mas determinante diferença.

Podemos, hoje, apenas especular o porquê de ter tido lugar este erro. Talvez se tenha perdido a partícula apassivante: «Para melhor SE observar o Sol no seu Meridiano», o que, ainda assim, poderia induzir em erro.

O que faz sentido é que, o Segundo Vigilante, a meio da Coluna do Sul, esteja a marcar o lugar do Sol que, naquele ponto, atinge o Meridiano, o que, a ser observado do Norte, equivale a dizer que atinge o seu Zénite. Que me perdoem os astrofísicos, se estiver a dizer um grande disparate. Julgo que não.

Assim, a proposta é simples: acabemos com este erro grosseiro nos rituais do REAA, ou noutros em que tal apareça.

Para que ocupa aquele lugar o Segundo Vigilante? «Para marcar o Sol no Meridiano…», ou algo muito parecido com isto, é o que está correcto.

Não tenhamos pudor em alterar o que está errado num ritual. Como nos dizia um amigo, os rituais não são textos “Revelados”; foram escritos por homens e traduzidos por idiotas… homens, queria eu dizer.

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2 respostas a O Erro

  1. Holbein diz:

    «…diz respeito ao Segundo Vigilante, quando lhe é perguntado o porquê de ocupar aquele lugar no templo. A resposta é: para melhor observar o Sol no seu Meridiano… (…) Quer isto dizer, muito simplesmente, que é da Coluna do Norte que melhor se “observa” o Sol, e não na Coluna do Sul.»
    Concordo consigo nessa observação.

    «… o novo Companheiro, sentando-se agora na Coluna do Sul, passa a ser, também ele, um foco de Luz para os aprendizes… Este erro dá aso a situações caricatas, como aquelas em que o Orador toma a palavra para saudar o novo Companheiro, dizendo-lhe que agora passa a observar de uma forma mais favorável o Sol(!), quando há poucos minutos lhe havia sido dito que, a partir de então, passa a ser, também ele, uma Luz ou, melhor dizendo (para não nos confundirmos), um foco luminoso da Loja…»
    Aqui, concordo com o ritual, e não encontro qualquer contradição pois o C.˙. ao passar “a receber de uma forma mais favorável o Sol” reflecte-o para a Coluna Norte, passando também a ser “um foco de Luz para os aprendizes”.

    Excelente desbaste da Pedra
    TAF
    Holbein

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