O (fim do) equívoco e a proposta


[Este texto, antes de ser escrito, talvez necessitasse de um maior período de maturação da(s) ideia(s) que pretende transmitir, mas aqui vai.]

Há dias, demos conta de um eventual equívoco que pode surgir após a constatação do facto, já pouco questionável, de que James Anderson e os seus compinchas nada têm a ver com as “verdadeiras” corporações de pedreiros (medievais) e, como tal, nada poderiam saber dos segredos por estas veiculados. Sabe-se hoje que Anderson (e os seus compinchas) terá fabricado uma história para atribuir antiguidade (e credibilidade) a um grupo que estava a surgir naquele momento: a Maçonaria (especulativa). O próprio dia 24 de Junho de 1717 tratar-se-á de uma data meramente  simbólica, tal como o será, avançamos nós, o número de “lojas” que se terá reunido, para formar a Grande Loja de Londres (e Westminster): 4. Sobre este assunto valerá a pena ler alguns capítulos do livro “A Saga dos Maçons” de Marie-France Etchegoin e Frédéric Lenoir, editado pela Aletheia e o artigo “As Origens da Maçonaria Especulativa: as teorias actuais” de Roger Dachez, traduzido por Jorge P. Branco, que se encontra no nº15 da revista “Grémio Lusitano”, 1º semestre de 2010.

A ideia que pretendemos transmitir com este texto é a de que Anderson, ao fazer-se passar por uma coisa que não é, não quer dizer, necessariamente que essa coisa, pela qual ele se quer fazer passar, exista de facto. Clarificando (ou complicando), se alguém, por qualquer razão obscura, se quisesse fazer passar por amolador de lâminas de sabres de luz (daqueles usados na “Guerra das Estrelas”), mas, de facto, não o sendo, não quer dizer que existam amoladores de lâminas de sabres de luz…

Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria, que faz remontar, nada mais nada menos, a «Adão, o nosso primeiro antepassado» e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que a Maçonaria remonte a tais tempos. Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria, da qual Moisés havia sido Grão-Mestre e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que Moisés tenha sido Grão-Mestre da Maçonaria. Anderson, ao dizer-se herdeiro da Maçonaria ou das corporações de pedreiros (livres), depositários de segredos de profundo sentido iniciático, responsáveis também pela construção das grandes Catedrais góticas e, de facto, não o sendo (herdeiro), não quer dizer que essas corporações (cuja existência não pomos em causa, como é óbvio) fossem depositárias de quaisquer segredos iniciáticos (sendo que também não pomos em causa a existência de segredos de ordem técnica), e a responsabilidade da construção das Catedrais, julgamos nós, terá de ser encontrada mais a montante (já iremos desenvolver esta ideia).

O equívoco que encontrámos, em particular, prendeu-se com estes últimos, com os pedreiros e suas corporações, dos quais Anderson nada herda, como já vimos. Mas a questão que pomos é: haveria alguma coisa a herdar (ainda para mais no século XVIII)? A resposta que tendencialmente encontramos é que sim, que havia. Que nas ditas corporações haveria segredos de vária espécie, entre os quais segredos de carácter iniciático, os quais estariam a ser difundidos através da simbólica empregue nas construções diversas e, muito em particular, nas supra referidas Catedrais.

Nós, não pelo gosto de ser do contra, mas sim baseados na razão e na lógica, vimos defender o contrário. De facto, parece-nos muito pouco plausível que as corporações de pedreiros, uma das muitas corporações de ofício que existiram na Idade Média, estivessem na posse de quaisquer saberes “especiais”, para além daqueles específicos do seu ofício.

Parece-nos bastante mais sensato considerar que terá existido uma elite pensante e conhecedora, constituída não só por Nobres (pois muitos eram completamente iletrados), mas, mais certamente, por homens da Religião ou das Ordens Militares-Religiosas, que poderia até incluir mestres dos diversos ofícios, entre os quais o de pedreiro, naturalmente, e que procuraria difundir o seu saber, utilizando para tal as mais diversas formas. Num mundo de iletrados, a difusão através do livro seria sempre diminuta (para além de que, muitas das vezes, por este meio, teria de ser feita de forma críptica, para iludir censuras diversas), e será de admitir que terão sido usados outros meios para tal fim. Aquele que menos se terá deteriorado e do qual terão chegado até nós mais testemunhos, pelas suas características, foi o meio a cargo do pedreiro, o talhar da pedra, o registo em rocha da mais variada simbologia que se possa imaginar. Pedras e rochas talhadas, também e principalmente, para a construção, a soldo da Igreja, de Catedrais e, “com o dedo” dessa tal elite pensante, dizemos nós, repletas de simbólica que pretenderia difundir um saber arcano.

Esta ideia, ainda que fruto da mais pura especulação, parece-nos de maior sensatez do que aquela que pretende apresentar-nos um pedreiro que, após uma jornada de 12, 14, 16 horas de árduo trabalho, ainda terá forças para especular sobre os símbolos que vai talhando. Ou mesmo a outra ideia de que o pedreiro era “livre”, e que andaria de terra em terra a construir Catedrais. Isto é a sério, não só o ouvimos como já o vimos escrito: os pedreiros eram livres, literalmente, pois, ora construíam uma Catedral aqui, como logo a seguir pegavam em todos os seus utensílios e iam construir outra Catedral acolá… Nem sei se valerá a pena estar desconstruir tal ideia tão estapafúrdia, para além de que essa questão do “livre” também já está, hoje, mais ou menos resolvida; é ir ver. Ide.

Mas, voltando ao Anderson, valerá a pena dizer ainda que, ao fazer-se passar por algo que não era, reclamar uma herança que não lhe pertencia, de facto não lhe ficou nada bem. Mas outros já o haviam feito antes dele e muitos o fizeram depois. Não são poucos os grupos que reclamam para si as mais remotas origens; diríamos que são mesmo muitos! Arriscaríamos até dizer que, no panorama dos grupos ou ordens tradicionais do Ocidente (que é a realidade que melhor julgamos conhecer), todos o fizeram, mesmo aqueles pelos quais nutrimos as maiores simpatias.

Assim, ao reprovar o que fez Anderson, teremos de reprovar templarismos, rosacrucianismos, martinismos, druidismos e outros…

Valeria a pena que, propomos nós, ao invés de reprovar Anderson, olhássemos para o que nos legou com outros olhos, interpretando os seus escritos, atribuindo-lhe uma dimensão simbólica, em vez de literal; sendo que esta leitura literal talvez nunca tenha sido pretendida pelo próprio… Excluem-se desta ideia de leitura simbólica, as Constituições propriamente ditas, claro está.

Por outro lado, voltamos a dizer, Anderson, ao fazer-se passar por herdeiro das corporações de pedreiros e dos seus segredos, e não o sendo, não quer dizer que essas tais corporações fossem depositárias de quaisquer segredos (pedimos desculpa pela repetição). Valerá a pena referir que se desconhece (não quer dizer que não tenha existido), à altura em que Anderson faz conhecer a Grande Loja de Londres, quaisquer movimentos de contestação. Pelo contrário, para as corporações de pedreiros existentes na altura, de que Anderson se fez valer e que se apresentavam em avançado estado de decrepitude, terá sido até muito bem visto o interesse desta “nobre” gente nas suas organizações, que há muito recebiam ilustres no seu seio, a título meramente honorífico, como também se sabe. A contestação existe, sim, muito mais tarde, em 1756, quando surgem os “Antigos”, mas isto são já disputas no seio da Maçonaria (especulativa)…

***

Por fim, se nos deixarem, gostaríamos de ir ainda um pouco mais longe nesta reflexão. Para tal, gostaríamos de apresentar ainda uma outra proposta…

E o que propomos é o seguinte: contestando ou não Anderson, em vez de andarmos a buscar as raízes da Maçonaria nos Cavaleiros Templários (o que tantas vezes se faz, e por isso aqui o referimos) ou nos construtores de Catedrais, como eventualmente o tiveram de fazer os maçons dos séculos XVIII e XIX, as buscássemos, hoje, nos maçons do Séc. XVIII que, incansavelmente, se predispuseram a encontrar um sistema de iniciação baseado numa simbólica muito rica, alicerçado em rituais, também estes riquíssimos de informação vária, de cariz quase sempre religioso e cristão, espraiado, por fim, em volumoso número de graus e qualidades. Esse exaustivo trabalho começa a dar frutos no dealbar do século XIX, mas também um pouco antes, com a sistematização dos graus e rituais mais usados desde então, como é o caso do Rito Francês ou Moderno e do Rito de York, estes um pouco mais velhos (ainda do século XVIII), ou do Rito Escocês Antigo e Aceite e do Rito de Emulação (estes já do século XIX), para referirmos apenas os mais conhecidos / trabalhados. Propomos, então, que seja aí que se perscrute, que se investigue as “raízes” da Maçonaria como a conhecemos hoje e não em eventuais heranças de “pedreiros operativos” ou até, mesmo que os separem quatro séculos, de Cavaleiros do Templo.

A proposta fica feita. Até logo.

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Uma resposta a O (fim do) equívoco e a proposta

  1. Holbein diz:

    «Ou mesmo a outra ideia de que o pedreiro era “livre”, e que andaria de terra em terra a construir Catedrais. Isto é a sério, não só o ouvimos como já o vimos escrito: os pedreiros eram livres, literalmente, pois, ora construíam uma Catedral aqui, como logo a seguir pegavam em todos os seus utensílios e iam construir outra Catedral acolá»
    Estes “pedreiros-livres” eram livres de impostos e de se terem de apresentar ao Decano da confraria do míster em cada nova terra onde fossem desenvolver a sua actividade – o que lhes dava maior liberdade de movimentos do que aos pedreiros “não livres”. Sempre assim entendi desse muito que está escrito.

    TAF
    Holbein

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