A proposta (outra)


Se tivéssemos de definir o que é a Maçonaria, diríamos que é, acima de tudo e primeiramente, uma Ordem iniciática; adogmática sempre que possível, o que não quer dizer que não tenha dogmas, porque os tem; adoutrinária, uma vez que a sua doutrina, se é que se pode dizer que existe, foi construída por maçons diversos, e não directamente no seu seio; tradicional, isto é, que se insere num modelo organizacional de longa tradição; e, finalmente, que se baseia no ritual e em símbolos para a persecução do seu objectivo, objectivo esse que, por se tratar de uma Ordem iniciática, só pode ser a Iniciação de cada um dos seus membros, para que, individualmente ou em conjunto, possam ser elementos de grande valor (ou pelo menos de valor acrescido) no mundo profano.

Como já pudemos escrever anteriormente, à volta deste objectivo primevo, gravitam um sem número de consequências do trabalho maçónico individual e/ou conjunto, mas que não podem ser consideradas como objectivos da maçonaria, ainda que algumas dessas consequências devam estar presentes, sem excepção possível, posto que sem elas dificilmente se poderá dizer que se está a fazer, ou a praticar, Maçonaria. São elas, por exemplo, a Solidariedade e a Fraternidade, entre outras, mas que são, como dissemos e voltamos a reafirmar, consequências do trabalho maçónico, e não o seu objectivo. Em todo o caso, é bom que se reforce esta ideia de que, se ao se praticar Maçonaria não surgirem naturalmente a Solidariedade e a Fraternidade, é porque não se está a fazer Maçonaria. No entanto, o inverso não se aplica, isto é, ao praticar-se a Solidariedade ou a Fraternidade não se está, ipso facto, a fazer-se Maçonaria. Seria bom, também, que se entendesse isto, para que se deixe de dizer, por exemplo, aquele chavão idiota: fulano de tal, mesmo que não tivesse entrado na Maçonaria, já era maçon… Ser-se maçon não é ter-se a exclusividade da solidariedade ou da bondade ou de outras boas qualidades. Sobre isto escreveremos um dia, ainda que já tenhamos chegado perto do que queremos dizer, aqui.

Para além disso, a Maçonaria, ao contrário do que dizem aqueles que a vêem (à Maçonaria) em tudo o que é sítio, é algo muitíssimo específico, pelo que para a sua prática têm de estar reunidos diversos requisitos, como sejam, de entre outros, a reunião em Loja, com um ritual específico, e o uso de uma indumentária particular.

Depois, estando estas circunstâncias reunidas, é preciso pensar-se naquilo que se irá fazer nesses preparos, que muitos consideram totalmente desadequados e/ou anacrónicos. Será que fazem sentido todas estas “extravagâncias” para se falar sobre algo que se pode discutir à mesa do café, ou numa sala de conferências (durante uma conferência, entenda-se), ou, até, no sossego de uma sala de estar, rodeado dos mais próximos amigos? Parece-nos que a resposta a esta pergunta será, tendencialmente, um não redondo – apesar de acharmos que a sala de estar, em reunião com os mais próximos amigos, se trata de um cenário extremamente atraente.

Assim, baseados no que pudemos expor acima, parece-nos que a escolha dos temas a serem debatidos em sessão maçónica deve ser absolutamente criteriosa; temas essencialmente de índole maçónica, mas também outros, cuja a análise pode ser beneficiada pela “claridade da Luz Maçónica”. Este universo de temas, parece-nos, está longe de ser limitado, não só pela extensíssima simbólica que a Maçonaria oferece, como também pela tal claridade que beneficiará a análise de outros temas, que normal e naturalmente associamos à Maçonaria.

Acrescentamos, em todo o caso e sem pudor, que terá de haver limites (relativamente) bem definidos para a escolha dos temas – escolha essa que já a dissemos absolutamente criteriosa; limites que terão de ir mais além do que aqueles que estão já definidos ab originepela existência dos vários graus no percurso maçónico, e pelos símbolos que a cada um correspondem; limites que terão de ir mais além do que aqueles que se encontram nos Landmarks e Constituições, por exemplo; limites, diríamos, de extrema importância para que não se corra o risco de, ao julgar-se que se está a “fazer Maçonaria”, se esteja, de facto, a fazer-se outra coisa qualquer…

Recuperado uma ideia que já havíamos desenvolvido aqui, se nos permitirem, procuraremos dissecar um pouco mais, trazendo novamente a lume ou chamando a atenção para a diferença – nem sempre notada, mas que é insofismável – que existe entre uma associação profana, tutelar, e responsável pela gestão de património material e de tudo o que a isso é inerente, e a organização maçónica que operará no seu seio. Ainda que em muitos casos, muitos as confundam, não são a mesma coisa, nem podem ser, pois são de naturezas diferentes.

Uma, é uma associação profana, cujas preocupações só podem ser desse nível (profano) e a outra, que se aproveita (no bom sentido) da estrutura que esta gere, é de natureza simbólica, iniciática e espiritual, e serão essas, naturalmente, as suas preocupações. Temos dúvidas de que sejam indissociáveis essas duas associações. Parece-nos que, por princípio, até o podem ser: uma organização maçónica pode perfeitamente existir per si, sem que qualquer organização profana a tutele. Mas não é a isto que se assiste no panorama maçónico nacional, grosso modo.

Assim, normalmente assiste-se à existência da referida associação profana, à qual, por inerência de se haver adentrado a organização maçónica por esta tutelada, todos pertencem. No entanto, esta última terá, no nosso entender, e parece-nos que isto é pacífico, precedência sobre aquela. Ou seja, pressupõe-se que será mais importante, para o maçon, a organização maçónica e, em particular, a sua Loja, do que propriamente a associação profana que a rege. Sobre essa, sabe-se que, como qualquer outra associação profana, precisará de ter um número de pessoas disponíveis para preencher alguns cargos de responsabilidade, e sabe-se, até, que algumas dessas pessoas nem têm necessariamente de ser maçons, tal como aquelas que trabalham nas Secretarias, por exemplo.

Assim, não será disparatado supor que, para muitos maçons, ou pelo menos para alguns, aquilo que se passa com a associação profana tenha pouca importância, ou nenhuma, desde que o trabalho realizado por essa associação seja bem feito e que contribua para a manutenção dos espaços e demais circunstâncias necessárias às reuniões maçónicas. Supor o contrário, isto é, supor que todos estarão ou terão de estar interessados nessa gestão profana, é que nos parece uma suposição errada e mesmo abusiva.

No entanto, aquilo que nos foi dado a presenciar e a conhecer – haverá excepções, naturalmente – foi o triste espectáculo de ver confundidas, pelos seus membros, estas duas associações ou organizações distintas. Esta confusão dá assim lugar a que sejam discutidos, em sessão maçónica, assuntos que se referem, em exclusivo, à associação profana, que por serem dessa natureza (profana), não podem, sob pena de se deixar de estar a “fazer Maçonaria”, ter lugar dentro de um templo Maçónico; isto devido, também, mas não só, à incompatibilidade técnica que já pudemos anteriormente assinalar. Esta discussão de temas relacionados com a associação profana não está, entenda-se, posta em causa. Como é óbvio, deve e tem mesmo de ser feita, mas em ambiente, ou de forma totalmente diferente, defendemos nós. Esta defesa é alicerçada, não só por tudo o que pudemos expor acima, mas também por uma razão de eficácia que, no nosso entender, fica sobejamente comprometida pela discussão de tais temas em sessão maçónica.

Assim, gostaríamos de propor, a bem da Ordem Maçónica em geral – se nos for permitida tal arrogância, mas essencialmente como conclusão deste texto –, que fosse avaliada ou considerada a ideia de que o debate de “assuntos administrativos” pudesse passar a ser feito fora das sessões, e por pessoas das Lojas que sejam, ora nomeados e eleitos para tal, ou que para isso se predisponham. Estamos certos que facilmente se constitui este grupo de entre os membros de uma Loja, que merecerá a total confiança dos restantes, para que possa tomar as decisões indispensáveis ao bom funcionamento das oficinas e, por extensão, da Obediência.

As sessões maçónicas, essas, ficariam em exclusivo, para a prática daquilo que todos concordaram, por princípio, ir fazer, e que é, claro está, Maçonaria.

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