Onde, quando, o quê, como e porquê?


Um autor, que no início deste século líamos sofregamente, de seu nome José Flórido, que pouco tem que ver com “movimentos tradicionais”, dizia numa das suas obras (ou terá sido oralmente?) que o Homem procura juntar-se a um grupo para preencher uma necessidade intrínseca a todo o ser humano, e que é a de se colectivizar.

Para isso, associa-se à colectividade do bairro, faz-se sócio do ACP ou do clube de futebol do coração, paga as quotas na Associação dos Bombeiros Voluntários de Queluz ou junta-se à Maçonaria.

Será esta, em grande percentagem, a razão pela qual muitos se juntam a esta provecta organização, aliciados também pelo amigo (maçom) que lhes garante: «vais ver que vais gostar; há por lá muita malta porreira, passas um bom bocado (não confundir com o bolo) e ainda fazes uns contactos».

Assim, respondendo a um anseio íntimo que o impele à colectivização, e com a garantia de que vai ser “porreiro”, como lhe disse o amigo, lá vai o indivíduo juntar-se a uma organização de que nada sabe (nem procura saber), para além, claro está, dos fait divers do costume.

Houve ainda algo que lhe ficou a retinir no ouvido, de que já muito ouviu falar: os famigerados “contactos” que por lá se fazem. Isto interessa-lhe, interessa-lhe bastante. Assim como interessa a uma grande (íamos escrever “esmagadora”, mas talvez fosse um exagero) maioria daqueles que por lá adentram.

Há dias líamos um texto de um Amigo, pelo qual temos a melhor das considerações, que dizia que a «Maçonaria não é uma extensão mais bem apetrechada do Centro de Emprego» e que «as raras pessoas que conseguem entrar na Maçonaria com este tipo de pensamentos, ou com o intuito de obter vantagens conexas, são rapidamente detectadas e postas no seu devido lugar (leia-se, convidadas a sair)». Tenho muita pena de ter de discordar deste Amigo, mas parece-me que acontece exactamente o contrário.

É certo que por estes dias o cenário é muito diferente, pois a Maçonaria não ficou imune à tão falada crise que estamos a atravessar, e hoje pulula nos seus corredores um grande número de desempregados, sem vislumbre de encontrar, dentro ou fora [da Maçonaria], solução para o seu problema.

No entanto, é ainda esta ideia (a dos “contactos”) que move muitos dos que por lá andam e muitos dos que para lá querem entrar.

Seria de esperar que, com a crise, a Maçonaria fosse alvo de um saneamento deste tipo de pessoas (e acontecerá, sem dúvida), mas por vezes são aqueles que são vítimas do infortúnio e que lhe pertencem somente por razões ligadas à própria prática maçónica (sem mais “apêndices”), que se vêem arredados dos trabalhos, por impossibilidade de pagar as capitações.

Em todo o caso, mesmo que um indivíduo não entre para a Maçonaria, nem para preencher uma necessidade da natureza humana, nem para encontrar contactos que lhe facilitem a vida, são poucos, dando-se o caso de por lá ficarem, os que escapam a um rame-rame que se mantém anos (décadas?) a fio, sem vislumbre de mudança.

Um rame-rame que se mantém pois, para os maçons, em traços gerais, basta fazer três perguntas (e nós achamos de deviam fazer cinco): onde(?), quando(?) e o quê(?).

«Onde é que é a sessão? Quando é que é a sessão? E vamos fazer o quê?». E isto, para muitos, quase todos, é o bastante.

São poucos os que se indagam do “como”, e os que fazem a derradeira pergunta, o “porquê”, são tão raros que, provavelmente, estão mesmo em vias de extinção (ou não).

O “como” prender-se-á com o ritual praticado: estará a ser executado em condições? Apresenta falhas? E serão falhas do próprio ritual ou do executante? Servirá este ritual a todos ou será melhor encontrar outro que melhor sirva? Tantas e tantas perguntas que surgem, mas que morrem mesmo antes de nascer, pois (quase) ninguém se mostra interessado (nem em fazê-las, quanto mais dar-lhes resposta).

E, por fim, o “porquê”: qual será o objectivo derradeiro que a todos move? São lestos em responder que NÃO estão “ali” por motivos pessoais e/ou profissionais, mas emudecem quando lhes é perguntado: «então é porquê? Porque é que aqui estás? O que te move? O que te faz retirar tempo da tua presença à tua família, aos teus afazeres, para aqui estares com um avental e umas luvas, a dizer palavras que, muitas vezes, desconheces o significado?».

Em todo caso, estas perguntas têm, por vezes (pasme-se), respostas, mas estas prendem-se, também quase invariavelmente, com questões “externas” (vamos dizê-lo assim) à pessoa: «Estou aqui porque me interessa o papel que a Maçonaria desenvolveu ao longo da História», ou, o que é quase a mesma coisa, «a mim interessam-me as conquistas históricas da Maçonaria, como a implantação da República em Portugal ou a Carta dos Direitos Humanos», ou o diabo a sete, acrescentaríamos nós (pode ler-se o que pensamos disto aqui).

Quando há pouco dizíamos que, para nós, “acontece exactamente o contrário”, queríamos dizer que aquelas (raras) pessoas que se apresentam aos portais da Maçonaria com uma vontade de auto-análise e de auto-descoberta, implicitamente (ou explicitamente, se o quisermos ver) propostas por esta organização iniciática (de entre outras “propostas”, mas que não nos afastam destas), pois é para isso que verdadeiramente nos remetem os rituais e a atmosfera “criada” nos templos (onde irmãos se reúnem com irmãos, a coberto da indiscrição dos profanos), essas (raras) pessoas, essas sim são «rapidamente detectadas e postas no seu devido lugar (leia-se, convidadas a sair)».

Para terminar numa nota não tão “catastrófica” como aquela da frase imediatamente anterior, será de referir que existe um número cada vez maior de maçons disponível para dar atenção a questões que apelidaríamos de (desta feita sem receio de exagero) verdadeiramente importantes. Isto é, existe um número cada vez maior de maçons para o qual a prática correcta e rigorosa do ritual é de enorme e inquestionável importância. São adeptos da ideia de que, em Maçonaria, a forma é conteúdo e é, então, primaz dar atenção aos rituais, às frases e ideias que aí se encerram, para que se possa construir com bases sólidas.

E há também aqueles que se preocupam com o “porquê” de ali estarem, mas um “porquê pessoal”, uma indagação íntima; preocupação, essa, que irá “encontrar eco” (muito naturalmente) em outros irmãos, e juntos irão preparar projectos de Loja, ideias-mestras que os ajudem a dar um justo rumo aos seus trabalhos conjuntos.

Acrescentamos, ainda, que existe um número cada vez maior de maçons para o qual o ritual não é simplesmente algo que lhes aconteceu, quase que por acaso, naquele determinado dia. Este cada vez maior número de maçons apresenta-se em templo procurando fazer emergir o melhor que em si existe, elevando-se acima de uma existência meramente profana, e procurando fazer a ligação com algo superior; algo superior que habita em si, mas que tantas vezes tem de reprimir na sua vida (profana), por circunstâncias que apenas se alteram quando se encontra num templo, com os seus irmãos, onde pode (ou deveria poder, é isso que defendemos) deixar cair as máscaras que diariamente usa.

Diríamos, para finalizar, que existe um número cada vez maior de maçons a olhar para a Maçonaria “com olhos de ver”. Será talvez tempo da Maçonaria deixar de ser tão mal tratada (pelos próprios maçons, leia-se), mas também sabemos que não vai ser já p’rá semana.


P.S.: onde, no texto, se lê irmãos, pode ler-se irmãs, como é óbvio.

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