Por favor, deixem de dizer disparates


Os rituais maçónicos chegam-nos, muitas vezes, sob uma forma “seca” e “directa” e, assim sendo, tornam-se passíveis de várias e múltiplas interpretações. Isto é, uma passagem específica de um ritual pode ser interpretada de formas diferentes, de acordo com a perspectiva (ou o preconceito) de quem o está a interpretar, a ler.

A última que ouvimos, deixou-nos atónitos. Não por ser “nova” (já há uns tempos nos tinham dito o mesmo), mas agora assustou-nos saber que é uma interpretação que anda a ser disseminada há anos. Trata-se de considerar que, no Grau de Aprendiz do Rito Escocês Rectificado (RER), aquando em ritual, se está a “trabalhar” fora do Templo. E, desta vez, nem tem a ver, directamente, com a posição das colunas, apesar de aí se poder encontrar parte da desconstrução desta ideia.

Trata-se, em todo o caso, de uma ideia completamente disparatada, cuja disseminação deve cessar de imediato.

A dúvida surge, mesmo no seio de quem pratica o Rito, e não simplesmente naqueles que têm a mania infantil de o denegrir, uma vez que, no catecismo deste grau, encontra-se a seguinte passagem: «Em que parte [do Templo] tens trabalhado como Aprendiz?», ao que o Aprendiz responde: «No Pórtico». Devido a esta passagem, é dito e “ensinado” que no Grau de Aprendiz do RER se “trabalha” no Pórtico do Templo, isto é, literalmente, fora do Templo. Dois disparates: primeiramente, ignora-se a passagem imediatamente anterior, «Quantas partes tem o Templo?», e a resposta: «Três: o Pórtico, o Templo e o Santuário», ou seja, o Pórtico faz parte do Templo; e, depois, interpreta-se “à letra” aquilo que é eminentemente (e exclusivamente, diríamos) simbólico e que serve de estímulo à reflexão, à meditação dos Aprendizes (mas não só).

Os trabalhos em Grau de Aprendiz do RER, ou em qualquer outro Grau, diga-se, realizam-se dentro de um Templo Maçónico. Templo este que tem elementos que o remetem para o Templo de Salomão, mas não em exclusivo, e do qual não pretende ser uma réplica, como já havíamos dito num comentário aqui.

Andar a espalhar a ideia que em Grau de Aprendiz do RER não se está no Templo, mas sim no Pórtico, é um verdadeiro disparate. Isto só pode ser dito “simbolicamente falando”. Simbolicamente, o Aprendiz trabalha ainda “fora do Templo”, no Pórtico, é certo, e é aí que pode falar, que pode responder às perguntas do catecismo que lhe são colocadas; quando está fisicamente dentro do Templo onde se reúne a sua Loja, remete-se ao silêncio, não pode usar da palavra.

Outro argumento para desconstruir esta ideia, se é que os acima indicados não são suficientes, é o quadro de loja do referido grau. Este quadro, entre outros elementos, apresenta o tal Pórtico, com as duas colunas, sendo que na coluna da esquerda se encontra a letra J. Ou seja, de frente para o Pórtico, encontra-se a letra J na coluna da esquerda, mas no Templo, esta coluna está à direita, quando vista de dentro para fora, e é aí que encontramos a referida letra J, naturalmente. E é desta forma que todos a vêem, isto é, na coluna direita, quando estão dentro do Templo, Mestres Escoceses de Santo André, Mestres, Companheiros e Aprendizes, sem excepção. E aqui também não pode surgir a dúvida: “se calhar a letra devia estar, então, na coluna da esquerda, quando vista de dentro do Templo, para mostrar que, afinal, estamos fora, no Pórtico(!); estamos a fazer isto tudo mal…”; não pode surgir esta dúvida, dizíamos, pois a descrição do quadro de loja (tapete) é muito precisa, e indica que a letra J se apõe na coluna do Norte.

Resumindo: no Grau de Aprendiz do RER está-se dentro de um Templo, com tudo o que isso implica, sob o ponto de vista da solenidade, da postura, dos assuntos aí tratados. Passar-se a ideia de que se está fora do Templo, não só é errado sob o ponto de vista formal, como pode dar origem a um sem número de mal-entendidos e até uma certa postura mais “descontraída”, para não dizer “irresponsável”, dos participantes nos trabalhos desse Grau.

O Rito Escocês Rectificado é, verdadeiramente, um rito imensamente complexo, que requer um estudo profundo e cujo o trabalho ritualístico, em Portugal, pelo que nos foi dado a conhecer, se encontra ainda muito longe de estar perfeito. Louvamos, ainda assim, todos os esforços daqueles que o querem praticar da forma mais rigorosa, digna e solene que lhes é possível, estendo estes louvores a todos os que procuram trabalhar maçonicamente, desta mesma forma rigorosa, digna e solene, independentemente dos ritos praticados.

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Fé, Esperança e Caridade


Deus é Amor

As cores dos paramentos no RER, nomeadamente no grau de Mestre Escocês de Santo André, correspondem às virtudes teológicas e, das tantas bandeiras nacionais que as ostentam, sublinho o facto dessas virtudes terem honras na bandeira nacional da Bulgária e a Sabedoria sua mãe, segundo a iconografia ortodoxa, no nome da Capital.

Já antes tinha cismado nestas virtudes do espírito, e na sua simplista interpretação quotidiana, tentando compreender melhor as quatro virtudes morais que devem guiar o comportamento dum M:. em palavras, actos e omissões. Sobre as mesmas escrevi alhures que na 2ª Viagem da Passagem a C:.M:., a Régua e Compasso simbolizam a harmonia e o equilíbrio necessários à decoração do templo. Com eles se podem construir todas as figuras geométricas existentes e que nos lembram as quatro virtudes cardeais: a régua traça a linha recta da conduta física e moral  na Justiça e na Temperança; e o compasso, emblema da sabedoria e da circunspecção, permite medir os ângulos e estabelecer as proporções e traça um círculo que indica o alcance da nossa conduta na Fortaleza e na Prudência, extrema perspicácia que gera a faculdade da vidência (a pro videntia).

Encontramo-la em parte do Movimento Metodista proveniente do Cristianismo Arminiano na teoria da graça preveniente – a graça divina que precede as decisões humanas.

«Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta.» Tiago 2:16

Sobre estas virtudes da mente coordenadoras da acção devem reinar as virtudes do espírito pelas quais conseguimos vislumbrar o sentido e a medida das outras.

Eis como eu as entendo como espírito, fonte de inspiração e guia do meu intelecto:

A Fé tem como símbolo a cruz. É a confiança em Deus e a entrega de cada um a Ele, sem reservas, sem dúvidas e provém do uso correcto de todos os nossos sentidos e ao estar constantemente alerta para a sua voz exigindo pois um constante trabalho deixando no mais profundo do desespero aqueles que, desatentos, perdem o Bom Caminho e desistem do Bom Combate, tornando-se meros espectadores da vida dos outros.

A Esperança tem como símbolo a âncora. Provém da firmeza dessa Fé – é o agir de acordo com a Fé, o trabalhar para cumprir um objectivo, para o realizar de um sonho, com a convicção que o seu trabalho e esforço será sempre recompensado se o objectivo estiver de acordo com a vontade de Deus, ou seja a Caridade, o Destino ou o Bom Caminho.

A Caridade, Ágape ou simplesmente Amor é simbolizada pelo coração, é o amor incondicional e abnegado que governa cada um, é “o Amor é a Lei, o Amor sob a Vontade” da Thelema de Crowley, entendendo esta vontade como a vontade da alma e não a vontade egoísta da mente, e que não é senão partilhar os frutos da Fé e da Esperança.

É o Amor então que governa sem limites, sem medida, sem conhecer do bem e do mal e que nos faz resistir, sem vacilar, tanto às provações como às tentações.

Atrevo-me a citar Camões, pois bem sei que não sei se o entendo:

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho c’o tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos.
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos.

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Uma impossibilidade técnica


É possível notar uma “curiosidade”, chamêmos-lhe assim, que ocorre comummente nos movimentos tradicionais maçónicos ou outros semelhantes.

Acontece, bastas vezes, confundir-se o Objectivo, a Meta do Caminho, do percurso maçónico (ou outro, rosacruciano, por exemplo), com o próprio caminho em si. No entanto, chegar ao fim do Caminho e percorrer o Caminho não é a mesma coisa (já explorámos esta mesma ideia, num post anterior, ainda que de outra forma…).

Mesmo que muitas vezes nos digam que o importante não é o fim, mas sim percorrer o Caminho, o que não deixa de ser uma ideia interessante, contudo não há dúvida de que mais importante será sempre, pelo menos, saber para onde estamos a caminhar.

Assim, consideramos que não podemos confundir o Objectivo da Maçonaria, que é muito claro, e que é, todos o sabemos, a Iniciação, ou a Iluminação, ou o Despertar do Adepto, deixamos a cada um a preferência na terminologia; não podemos confundir isto, dizíamos, com o caminho a percorrer para lá chegar. Por exemplo, não podemos confundir a beneficência, indispensável, naturalmente, no percurso maçónico, com o objectivo da Maçonaria. Não podemos confundir o amor ao próximo, nem tampouco o acumular de conhecimentos, e ainda menos o repetir de rituais de uma forma vazia e muitas vezes displicente, julgando que dessa forma se está a fazer Maçonaria; não se pode confundir tudo isto com o verdadeiro e, arriscaríamos a dizer, único Objectivo da Maçonaria.

Porém, definir o que é a Iniciação é muito mais complexo do que à primeira vista poderá parecer – ou se calhar é tão simples, mas a nossa mente que sempre complica, não o consegue imediatamente apreender. Assim, como é muito difícil de definir o que é a Iniciação, foi-se substituindo esta pelo caminho que nos levaria, eventualmente, à mesma…

Julgamos que já fomos claros o suficiente. Avancemos…

No entanto, ainda que seja difícil definir o que é a Iniciação, nada nos impede de tentar fazê-lo… Imediatamente nos afloram à mente os conceitos de Silêncio Interior, a Plenitude do Vazio, o Eterno Presente, etc, etc. Conceitos, também estes, nada fáceis de apreender, é certo…

Mas houve alguém que quis levar tudo isto para um laboratório, imagine-se.

A experiência, levada a cabo nos anos 70 do século XX, consistiu em comparar a reacção de um grupo de pessoas “vulgares” com a reacção de um grupo de avançados monges do budismo Zen, quando ambos eram sujeitos a um choque eléctrico, ocorrendo este poucos segundos depois do toque de uma pequena campainha. Esta rotina foi repetida várias vezes.

Os cientistas, que levaram a cabo a experiência, puderam registar elevados níveis de ansiedade, no primeiro grupo, logo após o tocar da campainha, antecipando, naturalmente, o pequeno, mas perfeitamente perceptível e algo doloroso choque eléctrico. Por outro lado, o grupo de avançados monges Zen, naturalmente em meditação, não apresentava qualquer registo de ansiedade após o tocar da campainha. Esta experiência levou os cientistas a concluir (ou pelo menos a especular) que, neste estado meditativo, os monges Zen “perdem” a habilidade de aprender com as experiências vividas. Encontram-se num estado de eterno presente, em que cada momento é vivido sem conhecimento do passado.

Outra experiência muito semelhante, obteve o mesmo resultado. Um grupo de pessoas “vulgares” e um grupo de monges Zen foram submetidos ao escutar de um toque de uma campainha, com intervalos regulares. De 2 em 2 minutos, ouviam este toque. O primeiro grupo, depois da “surpresa” inicial, foi-se habituando ao toque da campainha e, passado pouco tempo, já praticamente não apresentava qualquer reacção ao referido toque, chegando mesmo a ignorá-lo. Também neste caso, o grupo de monges, em meditação, apresentava sempre a mesma reacção de surpresa a cada toque da campainha. A conclusão da experiência é a mesma…

Naturalmente, não vamos afirmar que estes monges haviam atingido a iluminação, mas não será falso referir que atingiram um estado meditativo que os permitiu encontrar um novo estado de consciência, ampliando-a. E, isto sim, é um dos objectivos, entre outros, do Caminho Iniciático: o ampliar da Consciência.

Claro que a tradição Oriental tem os seus métodos e nós temos os nossos, mas a meditação é uma ponte, é algo que nos une, e este estado meditativo, se bem que para atingi-lo serão necessárias ferramentas que estarão mais facilmente à disposição do estudante oriental, pode servir como símbolo ou como uma luz sobre os trabalhos num Templo Maçónico.

A especulação filosófica é incontornável na Maçonaria, e ainda bem que assim é, mas os momentos de Meditação ou, se preferirmos, uma vez que falamos em templo, os momentos de Contemplação não devem ser descurados e devem fazer parte dos trabalhos, julgamos nós.

A ideia de estar em Templo em verdadeira Presença, de viver o Momento Presente, e tal não ser o acumular de uma série aleatória de eventos que aí nos levou, ou ainda, usando uma expressão bem portuguesa, estar em Templo de Corpo e Alma deveria sempre nortear os trabalhos maçónicos.

É por tudo o que viemos a expor acima que consideramos que, ao entrar num Templo Maçónico, se devem deixar as personalidades à porta. Deve levar-se o mínimo essencial, ou mesmo nada, da vida profana para dentro dessas paredes; e quem diz da vida profana, diz do mundo profano no seu todo. Este deve ser deixado fora do Templo. Tal deve ser feito, considerando o que se disse acima, pois o Templo é um local de Presença (ou de Presente, que seria dizer a mesma coisa), de Contemplação, de contacto com o mais Alto em cada um.

Mas tal deve fazer-se, também, por outras razões.

Primeiramente, porque muitas vezes ao invocar a vida profana, estamos verdadeiramente a invocar a nossa pessoa, o nosso ego, o nosso pequeno eu. «Aconteceu-me isto, no outro dia… eu isto, eu aquilo… escrevi isto, disse aquilo, eu, eu, eu…» Já dizia o outro: «Sabes como encontrar o Diabo? É aquele que está sempre a dizer “Eu”»…

Assim, se se está num lugar sagrado a procurar aquilo que de mais elevado habita em cada um, de que serve andarmos apegados ao nosso pequeno eu?

Depois, basta saber o que a palavra profano quer dizer… Esta palavra provém do latim e quer dizer, muito simplesmente, “fora do Templo”. Pro, diante ou fora de, e Fanum, Templo, lugar sagrado. Assim, é impossível trazer algo profano para dentro de um Templo, sem lhe retirar o seu carácter sagrado. Ou, uma imagem ainda mais violenta, ao trazermos algo do mundo profano, para um espaço sagrado, estamos a fazer com que todos os que aí se encontram em Contemplação, em Meditação, sejam retirados dos seus lugares e colocados do lado de fora do Templo. Imagine-se a violência espiritual que isto implica…

Por fim, para reforçar a teoria que temos vindo a descrever, e que talvez possamos resumir nesta frase: num Templo Maçónico (ou qualquer outro local sagrado ou sacralizado) não deve haver lugar para a vida profana ou para assuntos do mundo profano, pois tal afasta-nos do Caminho da Iniciação, vamos ainda referir o exemplo dado pela Grande Loja Unida de Inglaterra ao construir a sua sede em Londres: o famoso Freemasons’ Hall.

Certamente estavam imbuídos de ideias semelhantes às que expressámos supra, e de outras, certamente, quando procuraram isolar o Templo principal deste edifício, o mais que lhes foi possível. Isto é, o magnífico Templo que alberga mais de 1700 maçons, é apenas acessível pela sua impressionante porta principal, e por duas outras portas reservadas às mais altas figuras desta instituição maçónica, e as suas paredes estão o menos possível em contacto com as restantes paredes do edifício, que alberga ainda, a título de curiosidade, 21 outros templos.

Foi nos dito, na visita que qualquer pessoa (profano ou iniciado) pode fazer a este espaço, que assim, simbolicamente claro está, o Templo encontra-se fora deste Espaço e deste Tempo

Este último argumento, julgamos nós, seria suficiente para que se evitasse levar temas, assuntos, aspectos da vida profana para os templos maçónicos, pois, para além de tais temas nos afastarem do processo iniciático, estes templos procuram estar simbolicamente, como acabámos de ver, fora do Espaço e do Tempo…

No entanto, mais importante do que saber que não se deve fazer isto ou aquilo é saber e, essencialmente, compreender o porquê! E isso é essencial que se procure fazer, sempre. Recuperaremos esta última ideia num post futuro.

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Dentro ou fora do Templo?


Há poucos dias ouvimos que «o RER nem sequer é Maçonaria»…

O argumento prende-se com a disposição das colunas e dos nomes a estas atribuídos, e alega-se que este rito pratica-se “fora do Templo”.

Esta será, porventura, mais uma discussão estéril, sem resposta definitiva.

Na Bíblia, as colunas Jaquim e Boaz são referidas por duas vezes:

«E levantou as colunas diante do templo, uma à direita, e outra à esquerda; e chamou o nome da que estava à direita Jaquim, e o nome da que estava à esquerda Boaz.» 2 Crónicas 3,17

«Depois levantou as colunas no pórtico do templo; e levantando a coluna direita, pôs-lhe o nome de Jaquim; e levantando a coluna esquerda, pôs-lhe o nome de Boaz.» 1 Reis 7,21

Em 2 Crónicas 3,17 surge, de facto, a ideia de que a descrição é feita de fora do Templo, mas em 1 Reis 7,21 esta ideia já não é tão clara.

Verdadeiramente, em nenhuma das duas descrições se pode afirmar, peremptoriamente, que a descrição é feita adoptando uma postura externa ou interna em relação ao Templo.

No entanto, não podem haver dúvidas de que, tanto num caso como noutro, primeiro se refere a coluna Jaquim e só depois a coluna Boaz…

Enfim, como dizíamos no início, será porventura uma discussão estéril, sem resposta definitiva. E, assim sendo, será mais sensato procurar não fazer afirmações do género: «o RER nem sequer é Maçonaria»…

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Breve Reflexão sobre a Esperança


Esperança, uma palavra que envolve o quotidiano de cada um de nós. Diariamente ouvimos falar de Esperança. Esta palavra tem uma forte conotação, quase mágica, que nos leva a um “acreditar”. Por vezes, a utilização desta palavra, quase que nos parece banal, despropositada, inadequada. Sabemos que no passado, além do valor atribuído ao Silêncio, igual seria o valor dado a cada palavra. Hoje, infelizmente, o Homem desaprendeu as grandes lições filosóficas da Antiguidade, deixou de ouvir, ver e sentir, e passou a existir ao invés de viver.

A Esperança é um sentimento que nunca vem . Esperança é um das três virtudes teologais, Fides, Spes et Caritas; Fé, Esperança e Caridade. Sem dúvida, nada despropositada a aliança entre estas três virtudes. Não há Esperança se não houver , e estas necessitarão de um coração (Caritas) onde possam operar; formam, curiosamente, um triângulo. Sabendo que a Lei do Triângulo é universal e existente em todo o Cosmos, podemos, de certo modo, confirmar esta teoria.

Desde que me conheço, sempre vivi impregnado por um espírito em verdadeira comunhão com os ideais de Cavalaria. Recordo-me que desde muito jovem nunca desisti daquilo que faz mover a minha vida, conhecer-me a mim mesmo; o “Gnôthi séauton” ou nosce te ipsum (célebre inscrição do frontispício do Templo de Apolo em Delfos; expressão, também, adoptada por Sócrates). Segundo Álvaro Ribeiro, «ao conhecer-se a si próprio, gnosticamente, o homem adquire a certeza de que pensa e raciocina para se relacionar com o espírito universal, e esta certeza habilita-o a adquirir por consistência aquela virtude que denominamos Fé».

Na minha vivência diária, sinto que a Esperança está incorporada, enraizada no meu Ser. Nascer de novo é um Esperança que alimento e jamais a perderei. Aqui fica uma réstia de Esperança que o Homem compreenda o seu Caminho para retornar a sua Origem Primordial.

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Da Iniciação: Ruptura, Despertar e Absoluto


A Filosofia sem Iniciação não conduz a nada,
A Iniciação sem Filosofia conduz à estupidez.”
Ibn Arabi

A Iniciação é Ruptura

Sem Ruptura não há Iniciação. Quando há Iniciação sem Ruptura, não é Iniciação, é uma concepção mental da mesma.

Ruptura com o nosso ego – que mais não é do que um eu ilusório, um falso eu, no qual procuramos uma cómoda e irrealista sensação de segurança no sempre mutável mundo da manifestação.

O ego é tão frágil quanto a concepção meramente racionalista e mental da Realidade. O ego é um guardião do umbral, nele se projectam todos os nossos piores receios. É verdadeiramente o nosso pior e único inimigo real. É um obstáculo à Iniciação, mas pode também ser um impulsionador da mesma. Para tal, o ego deve ser considerado como aquilo que é, nem mais, nem menos. Ele pode ser um excelente servo, mas quantas vezes é um terrível senhor!…

O ego tem medo de perder algo. E quanto mais tenta prender com as suas garras aquilo que não pode ser preso, tudo lhe foge.

O eu não tem medo de perder o que quer que seja. Em primeiro lugar, porque nada lhe pertence. Em segundo, porque é tudo.

A Iniciação que é conferida ritualmente numa Ordem Iniciática autêntica transmite uma semente àquele que busca. Porém, assim como um terreno deve ser fértil e estar lavrado para abraçar e fazer crescer essa semente, o iniciável deve romper com o passado, romper com as falsas concepções que tem acerca de si próprio, romper com tudo aquilo que não é verdadeiro. Só quando deixar de pensar a Iniciação é que se tornará naquilo que já era mas não sabia, um Iniciado. É preciso ir para além de pensar a Iniciação. É preciso vivê-la, senti-la e pressenti-la. Por melhor que seja a semente, quando esta é plantada num mau solo, ou quando não é regada, ela jamais crescerá. Será uma semente morta, inútil, desperdiçada. Por isso existe o adágio místico: “Muitos são os chamados, pouco são os escolhidos.”

Receber a semente é o mais fácil. É no preparar o solo e no cuidar da semente que está a chave da realização da Grande Obra. E aí percebemos que a semente nunca nos foi verdadeiramente “dada”, ela já existia em nós, mas estava adormecida.

Na Iniciação, a transmissão é 1% do trabalho, a inspiração é também 1%. Os outros 98% são transpiração. Iniciação sem transpiração é teatro. Iniciação sem transpiração é não-vivência da mesma.

Por isso, bem mais importante do que o grau recebido numa iniciação, é trabalharmos no nosso laboratório-oratório interior para atingir o estado correspondente a esse mesmo grau. Porque, para quem o recebe ou transmite, o grau não implica ter atingido esse estado. O estado não se transmite, conquista-se.

A Iniciação é o Despertar

Enquanto não despertarmos somos homens da torrente, seres adormecidos, inconscientes da sua verdadeira condição.

Aquele que Desperta nasce para uma nova realidade. Ele não nega o “Jogo do Mundo”, conhecido entre os hindus como “Lyla”, o mundo da manifestação visível e da aparência, de natureza fenoménica, fruto do mundo real e invisível, do incriado, de natureza numénica.

Não negando o Jogo do Mundo, aquele que Desperta aceita-o, porque sabe que faz parte da Máquina do Mundo. Mas aceita-o sem o tomar pela realidade. Aceita-o como ilusão. Ele está no mundo, mas não é do mundo, porém, vive no mundo. A sua pátria verdadeira é a das estrelas.

Aquele que Desperta reconhece o mundo que vive como um sonho.
Aquele que Desperta reconhece o mundo que sonha como uma realidade.
Aquele que Desperta, acorda e, assim, tudo lhe é revelado. Pois tudo está em si e Ele é tudo.

Ele é Aquele que É.

A Iniciação é o Absoluto

A Iniciação está para além de quaisquer palavras. O segredo da sua eficácia apenas diz respeito àquele que a vive. Querer defini-la é negá-la.

As técnicas iniciáticas e as ordens iniciáticas devem conduzir o iniciado à Via. Quando não o fazem, não são iniciáticas, são estruturas temporais. A iniciação não é confinável ao mundo da temporalidade. O seu reino é outro, inefável e intocável. A iniciação está para além do tempo e das concepções dos homens.

Sem o Silêncio não se chega ao Mistério.
Sem o Mistério não se chega à Iniciação.
Sem a Iniciação não se chega ao Absoluto.

O Absoluto é o abandono ao ser em si. É o não-fazer e o não-ser: a Não-Via.

A Não-Via não exclui as vias, antes integra-as, potencializando-as como facetas particulares da expressão do Real.

As nossas concepções da Realidade não passam disso mesmo, concepções. E, sendo nossas, nunca poderiam deixar de ser limitadas. Para abraçarmos o Absoluto temos de nos entregar, abandonando-nos ao Vazio. Aí nós somos aquilo que somos e não aquilo que pensamos que somos.

Vazio de mim, eu sou uma taça-receptáculo para o Divino, um Graal cujas facetas são a expressão do múltiplo que é uno.

Três Avisos:

Se eu recusar a iniciação, serei um eterno adormecido, presa da temível fatalidade.
Se, iniciado, eu recusar a ruptura, serei uma infeliz vítima do meu ego.
Se, tendo vivido a ruptura, a negar, mergulharei na noite negra da alma e no limbo dos mundos.

Três Luzes:

A Iniciação Leva à Ruptura
A Ruptura Provoca o Despertar
O Despertar Conduz ao Absoluto

Alexandre Gabriel

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“Reflexão Vária” ou “A Espiritualidade Pragmática”


Será interessante reflectir no facto de que cada vez mais jovens têm vindo a aderir a movimentos espirituais e/ou tradicionais.

Quanto a nós, estamos a assistir a algo completamente inédito, isto é, estamos perante um fenómeno sem paralelo na história dos movimentos tradicionais e espirituais do Ocidente.

Em tempos idos, e não podemos recuar assim tanto, estamos a falar essencialmente dos séculos XVIII e XIX (e grande parte do século XX), quem se agregava em movimentos tradicionais, como sejam a maçonaria, o neo-templarismo, rosacrucianismo, ou até o druidismo e outras correntes da Espiritualidade Ocidental, eram pessoas com idades, pelo menos, a partir dos 50/55 anos, com as suas vidas de certa forma estabilizadas e com filhos adultos, por vezes já casados e independentes. Desta forma, podiam dedicar-se a estes movimentos, que consistiam, essencialmente, em movimentos de especulação filosófica, mas também com trabalhos efectivos, como sendo serviços de segurança e/ou de solidariedade social, entre outros.

Reforçando a ideia, a estabilidade financeira, os filhos criados e independentes e o tempo livre, davam uma sensação de recomeço; abriam as portas à possibilidade de dedicação a uma Causa, de se poder fazer, finalmente, aquilo que sempre se quis fazer, mas que esteve vedado pelo necessário labor diário, essencial para prover a família.

Naturalmente que poderá haver excepções, mas parece-nos que o que acabámos de descrever terá sido a regra, ao longo de muitas décadas, se é que não o é ainda…

Contudo, em finais do século XX e inícios do século XXI, deu-se o fenómeno que referimos logo no início deste texto e que ainda se mantém: a adesão de pessoas cada vez mais jovens aos movimentos tradicionais. Isto foi notado por estudiosos ainda no decorrer do século XX, como Raymond Bernard, sendo que este nos deixou alguns textos e reflexões sobre a temática.

Hoje em dia, este fenómeno é por demais evidente e, naturalmente, abre-nos as portas para um sem número de reflexões, entre as quais se encontram aquelas que se seguem…

Reflictamos, então, em conjunto.

É um facto que, no seio dos grupos “espirituais”, pouco se fala de Karma, Anjos, Vidas passadas, Lei da Atracção, Reiki, Auras, Astrologia, etc. Sim, leu bem, pouco se fala. Ou seja, quando reunidos, os intervenientes dos referidos grupos têm, desde logo, estes temas como “dados adquiridos”, e dedicam-se, mais das vezes, à visualização criativa, à meditação conjunta e, ainda e sempre, à especulação filosófica. Mas, ainda assim, os temas estão lá, como um background, como um fio condutor. Claro que aqui a nossa experiência pessoal conta muito e não podemos afirmar que é desta forma que todos os grupos funcionam; provavelmente, estamos até muito longe da verdade ou do mais comum, mas o que nos tem sido dado a conhecer é desta forma que se processa. Naturalmente que existirão grupos a dedicarem-se exclusivamente a qualquer uma das temáticas que referi supra, excluindo todas as outras, o que, em todo o caso, não invalida a nossa teoria.

Fazendo fé que os grupos ditos “espirituais” funcionam aproximadamente da forma que acabámos de referir, poderemos tentar perceber o porquê de não se dedicarem, ou de não falarem sobre os temas que referimos. Em primeiro lugar, como dissemos antes, por considerarem que são “dados adquiridos”, isto é, calcula-se que cada um dos membros do grupo já se dedicou, individualmente, à maioria dos temas que são referidos.

E, em segundo lugar, porque são temas muito subjectivos e dados a muitas interpretações. Em abono da verdade, ninguém pode afirmar, peremptoriamente, que Anjos existem, que a Lei da Atracção é infalível, ou que tenhamos vivido vidas passadas. Não há forma de provar cientificamente, pelo menos para já, a existência do Karma, do Reiki ou da Astrologia – apesar de, no caso da Astrologia, já se ter chegado muito perto disso. Assim, estamos aqui no terreno das crenças e não da Ciência. E é muito difícil (diríamos mesmo desaconselhável) discutir crenças!…

Mas o que queremos analisar, essencialmente, e foi esse o mote para a elaboração deste texto, é como é que se lida com as crenças e os ideais dos movimentos Espirituais e Tradicionais numa altura das nossas vidas ou em idades em que somos constantemente postos à prova por circunstâncias várias. Isto é, como é que podemos continuar a acreditar no Karma, na Lei da Atracção, nos Anjos-da-Guarda, etc., quando as circunstâncias da “vida profana” nos colocam em situações de precariedade profissional, quando cortamos relações com alguém a quem chamávamos Irmão, quando sofremos com doenças graves, ou ainda, quando um filho nos morre ou está em vias de nos morrer nos braços. No que é que verdadeiramente acreditamos nesta altura?

O que pensar quando olhamos para trás e não vemos nada que possamos ter feito para estar agora nesta ou naquela situação aflitiva; vamos acreditar no Karma porquê? O que pensar quando vemos os nossos filhos a sofrerem e, obviamente, não atraímos nada disso; que credibilidade tem a Lei da Atracção?

As diversas circunstâncias que acabamos por viver põem em causa aquilo em que, durante muito tempo – ou pelo menos durante algum tempo –, acreditámos.

Seria bem mais fácil, para aqueles de que falámos acima, continuar a acreditar em todos os aspectos que referimos, pois as circunstâncias das suas vidas, já estabilizadas, seriam bem menos dramáticas. Mas quantos não terão, também, posto em causa as suas crenças quando esta ou aquela situação se deu nas suas vidas, mesmo em idade avançada, onde já tudo deveria estar bem consolidado? Não terão sido poucos…

Por outro lado, parece-nos que o que acontece é que, hoje em dia, alguns conceitos começam, também devido a um sem número de circunstâncias, a ser desviados dos seus significados originais…

Apesar de ser um conceito eminentemente Oriental, o Karma está já bem enraizado na tradição Ocidental, mas é visto, hoje em dia, como um fardo, como algo de que não nos conseguimos livrar. Por isso, jamais esqueceremos as palavras de um Bom Amigo que certo dia nos disse: «esquece o Karma e começa a encarar as circunstâncias da vida como Dharma, isto é, o Caminho, seja este pejado de rochas ou livre e fluido como um rio». Assim, cada acontecimento da nossa vida, sendo este positivo ou negativo, ainda que estes conceitos estejam impregnados de subjectividade, acaba por ser algo que devemos considerar como essencial para o nosso crescimento interior, como uma ampliação da nossa consciência, como uma ferramenta para sabermos lidar com situações semelhantes no futuro.

Quanto à Lei da Atracção, que juntamente com o Karma, são os dois temas que queremos, ainda e também, explorar nesta reflexão, pensamos que o seu significado está, nos dias de hoje, um pouco longe do seu significado original. O que nos é dito, em traços gerais, é que o Universo conspira a nosso favor e está disponível para realizar todos os nossos desejos, desde que nos mentalizemos disso, atraindo tudo aquilo que quisermos. Desde que o façamos de uma forma que, pasme-se, já foi definida, tudo está ao nosso alcance; é esse o “Segredo”. Temos muita dificuldade em aceitar isto, pelo menos desta forma tão simplista, e desmintam-nos se não é assim que nos “vendem” a Lei da Atracção.

Contudo, parece-nos que a referida Lei é um pouco mais complexa. E, tal como o Karma, não podemos afirmar que existe, assim como não podemos afirmar que não existe. Na dúvida, devemos procurar saber um pouco mais e não aceitar levianamente as explicações simples, que, não estando totalmente erradas, pecam por omissão. O que terá mais “lógica” será que o Universo esteja disponível para nos ajudar, mas de acordo com o nosso merecimento e colocando à nossa disposição as ferramentas que, de facto, nos fazem falta e nunca, mas nunca, exclusivamente, sob um ponto de vista meramente material e sem olhar a outrem. A ideia de que basta pedir um automóvel ao Universo para que o recebamos, ou que basta concentrar-nos durante dois minutos em Física Quântica para ficarmos a saber mais ou menos o que esta disciplina versa, parece-nos, mais do que ridículo, absolutamente insultuoso. O que será mais difícil de aceitar, por vezes, é que o que o Universo tem para nos oferecer é algo que não nos parece de todo positivo, muito pelo contrário, mas que será, sem dúvida, algo que nos tornará mais fortes no futuro…

Mas, mesmo tentando, modestamente, clarificar um pouco os conceitos por detrás das denominações, o que podemos pensar ou em que podemos acreditar quando, por exemplo, somos acometidos por uma doença grave ou quando vemos um filho a morrer-nos nos braços?

Outras tradições diriam «foi a vontade de Deus», mas para nós isto já não é suficiente…

Então, o que fazer? O que pensar? E acreditamos em quê?

Será que foi isto que Raymond Bernard previu quando nos propôs a ideia da não-Via; esse conceito perfeitamente desconcertante e tão difícil de apreender. Será que nos dirigimos para um niilismo, mas um niilismo crente; isto é, não acreditar em nada, não ter qualquer “bengala” e, mesmo assim, paradoxalmente, ser crente e acreditar que existe um plano, uma missão, uma inteligência superior, Deus?

Parece-nos que poderemos estar a caminhar nesse sentido. E num sentido, também, em que a Espiritualidade só tem Razão de Ser se for vivida no dia-a-dia – aquilo a que costumamos chamar de Espiritualidade Pragmática, mas também podíamos chamar de Espiritualidade Operativa; ao invés de uma Espiritualidade meramente teórica, baseada em crenças que podem cair por terra a qualquer altura.

Para nós, mais importante do que compreender a vida através de todas as teorias que referimos supra, ou de outras – apesar de continuarmos a achar que é importante, pelo menos, almejar a essa compreensão –, será vivê-la intensamente em todos os seus níveis, e em que a Espiritualidade, veja-se, é apenas um desses níveis, mas não o único!

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